“Alguma cidade sua”, diz Yury a Bebeto.
R$ 10 milhões do povo para operador do sistema de corrupção Bebeto do Choró.

REDAÇÃO

Repasse via “emenda Pix” a município ligado a investigado levanta indícios de uso irregular de recursos

 

No coração das investigações que abalam a política cearense, o repasse de R$ 10 milhões em emenda Pix pelo deputado federal Yury do Paredão (MDB-CE) ao município de Choró, em 2024, emerge como um dos episódios mais questionados do esquema de supostos desvios de emendas parlamentares. Esse valor, destinado a uma cidade de apenas cerca de 12 mil habitantes e controlada pelo então prefeito eleito (e hoje foragido) Bebeto do Choró (PSB), levanta sérias suspeitas de desvio de finalidade, apropriação indevida e possível financiamento ilícito de campanhas, conforme relatórios da Polícia Federal (PF) enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A modalidade escolhida a emenda Pix (transferência especial sem convênio formal nem finalidade específica obrigatória) já é criticada por sua baixa rastreabilidade. No caso de Choró, o risco se multiplica pela influência conhecida de Bebeto sobre a administração municipal. A PF destaca que, mesmo após a cassação do mandato de Bebeto pelo TRE-CE por abuso de poder econômico e compra de votos, o operador continuou a exercer controle efetivo sobre os recursos.
Relatórios finais da PF, datados de 2025 e 2026, descrevem o repasse como “amplamente facilitador de uso indevido”, especialmente em um contexto no qual empresas de fachada ligadas ao grupo movimentaram dezenas de milhões em fraudes e lavagem de dinheiro.
Provas colhidas pela investigação pintam um quadro preocupante de proximidade indevida:
  • Uma assessora parlamentar de Yury, registrada como secretária em seu gabinete, manteve contato direto com Bebeto em 23 de setembro de 2024, cobrando “planos de ação” e informações sobre a consultoria responsável pela execução da emenda.
  • Mensagens diretas entre o próprio deputado e Bebeto revelam questionamentos sobre limites de gastos em saúde para “alguma cidade sua”, expressão interpretada pela PF como reconhecimento de que Bebeto controlava gestões municipais de forma real, além do formal.
  • Diálogos interceptados e depoimentos, incluindo os de ex-prefeitos rompidos com o grupo, sugerem que repasses como esse integravam uma rede maior de “pedágios” (propinas de 12% a 15%) cobrados por articuladores em troca de emendas.
O ministro Gilmar Mendes, relator no STF, autorizou diligências específicas sobre Yury em julho de 2025, reforçando que a “influência conhecida de Bebeto sobre a estrutura administrativa e financeira de Choró” agrava a hipótese de desvio. O inquérito, desdobramento das operações Vis Occulta, Mercato Clausu e Underhand, aponta que recursos federais destinados à saúde e à infraestrutura em municípios pobres eram redirecionados para campanhas eleitorais, com saques fracionados e empresas laranjas como veículos de lavagem.
Enquanto isso, Choró, um dos menores municípios do Ceará recebe atenção desproporcional: R$ 10 milhões em um único repasse, em meio a um esquema que abrange ao menos 51 prefeituras. Essa distorção expõe as fragilidades do sistema de emendas, no qual mecanismos criados para agilizar verbas acabam servindo de porta para opacidade e corrupção.
Yury do Paredão nega qualquer irregularidade. Em notas públicas, afirma que os recursos são transparentes e consultáveis no Portal da Transparência da Câmara e que contribui para o desenvolvimento do estado sem apoios irregulares. No entanto, as provas materiais, áudios, mensagens e transações pressionam por respostas mais concretas: por que destinar montante tão elevado a uma prefeitura sob domínio de um foragido investigado por compra de votos e fraudes? Por que assessores cobravam “planos de ação” diretamente do operador central do esquema?
Esse episódio dos R$ 10 milhões não é isolado: é um sintoma de um modelo político que transforma verbas públicas em moeda de troca eleitoral, perpetuando clientelismo e desigualdades no interior cearense. Com Bebeto ainda foragido há mais de um ano e o inquérito avançando no STF, a sociedade cobra accountability.
Sem fiscalização rigorosa e reformas no sistema de emendas, casos como esse continuarão a minar a confiança nas instituições e a roubar recursos essenciais de quem mais precisa.