Deputados relatam impedimentos no IJF e no HGF, levantando questionamentos sobre transparência e gestão na saúde pública
Dois hospitais públicos de referência na capital cearense estão no centro de denúncias de obstrução ao trabalho de fiscalização de parlamentares. A deputada federal Ana Paula Brandão (enfermeira e conselheira federal do Coren-CE) relatou impedimentos no Instituto Doutor José Frota (IJF), hospital municipal gerido pela Prefeitura de Fortaleza. Já o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE) foi barrado no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), unidade estadual vinculada à Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Os casos, ocorridos em março de 2026, levantam questionamentos sobre transparência na gestão da saúde pública e possíveis tentativas de ocultar irregularidades.
Barreiras no IJF: “Ditadura” e Segurança Privada, segundo Ana Paula Brandão
A deputada federal Ana Paula Brandão visitou o IJF para apurar denúncias recebidas pelo Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren-CE) sobre condições de trabalho, falta de profissionais e irregularidades contratuais. Ela relatou ter enfrentado “barreiras inaceitáveis” à fiscalização: presença ostensiva de seguranças privados que impediram o livre acesso de parlamentares e órgãos federais de controle.
“Eu estava no IJF para verificar denúncias, respaldada pela legislação que garante meu direito de fiscalização. Mas me senti barrada. Fui acompanhada por seguranças e funcionários do hospital”, afirmou a parlamentar em vídeo divulgado nas redes sociais. Ela descreveu a situação como uma “ditadura” que impede o acesso a informações sobre estrutura, serviços e contratações.
Brandão apontou o superintendente do IJF, João Miquim, como responsável pela opacidade. Segundo ela, Miquim foi indicado com influência direta do médico Francisco Furtado, genro do prefeito Evandro Leitão (PT), casado com a filha Cecília Leitão e atuante na rede municipal de saúde. A deputada coletou provas de contratos milionários da Cooperativa de Atendimento Pré e Hospitalar (COAPH) no IJF e em outras unidades (como Hospital Gonzaguinha e Hospital da Mulher).
Os números são expressivos: a COAPH acumula cerca de R$ 363 milhões em contratos, incluindo valores próximos a R$ 80 milhões em 2026 com a Sesa, na maioria por inexigibilidade ou dispensa de licitação. Sindicatos como o Sindsaúde Ceará criticam o modelo como “falsas cooperativas”, com relatos de precarização, atrasos salariais (desde junho/julho e novembro/dezembro de 2025) e falta de transparência. Brandão defendeu a abertura de concursos públicos em vez de contratações via cooperativas e prometeu intensificar a fiscalização, inclusive com possível acionamento da Polícia Federal.
No HGF: Direção nega acesso a Alcides Fernandes
Em episódio independente, o deputado estadual Alcides Fernandes tentou fiscalizar o HGF após receber denúncias de usuários sobre péssimas condições de atendimento: pacientes em corredores ou cadeiras por longos períodos, estrutura precária e possíveis irregularidades. A direção do hospital – especificamente o diretor – negou o acesso à equipe parlamentar.
“Fui impedido de realizar uma ação de fiscalização no Hospital Geral de Fortaleza. O que a gestão está querendo esconder? Por que a falta de transparência?”, questionou o deputado em pronunciamentos nas redes sociais e na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). O caso ocorreu por volta de 23 de março de 2026 e gerou repercussão em perfis de oposição e veículos locais.
Diferente do IJF (municipal), o HGF é uma unidade estadual. Até o momento, não há posicionamento oficial detalhado da Sesa ou da direção do hospital sobre o impedimento.
Contexto comum: falta de transparência na saúde de Fortaleza
Os dois casos ocorrem em um momento de forte debate sobre a gestão da saúde em Fortaleza e no Ceará. Parlamentares de oposição argumentam que as barreiras configuram obstrução ao exercício constitucional da fiscalização (prerrogativa de deputados federais e estaduais). Representações já foram protocoladas em órgãos como Ministério Público Estadual (MPCE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Tribunal de Contas do Estado (TCE-CE), cobrando investigação de possíveis superfaturamento, conflito de interesses e precarização.
A gestão municipal e estadual, por sua vez, defende que os contratos são necessários para manter o funcionamento da rede SUS em meio à demanda crescente, e que as unidades seguem normas de segurança e gestão. Até esta publicação, não há respostas oficiais específicas sobre os episódios de obstrução relatados pelos parlamentares.
Especialistas em controle público consultados por veículos locais alertam que negar acesso a fiscalizações parlamentares pode configurar violação ao princípio da transparência e da accountability, previstos na Lei de Acesso à Informação e na Constituição Federal.
Repercussão e próximos passos
As denúncias ganharam visibilidade principalmente em redes sociais, Instagram e veículos como Diário 360, com compartilhamentos em perfis políticos. Ana Paula Brandão e Alcides Fernandes prometem levar o tema à tribuna da Câmara Federal e da Alece, respectivamente, e cobrar providências dos órgãos de controle.
A população de Fortaleza, que depende desses hospitais para urgência e emergência, acompanha o desenrolar dos fatos. Qualquer avanço – como abertura de inquéritos ou liberação de visitas técnicas – será acompanhado de perto pela imprensa.