Nayib Bukele prova que combate duro ao crime e obras visíveis geram resultados? Análise completa do “modelo El Salvador” em 2026
San Salvador, 10 de abril de 2026:
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, continua sendo uma das figuras mais polarizadoras da América Latina. Enquanto apoiadores celebram a transformação do país — de “capital mundial do assassinato” para uma das nações mais seguras do hemisfério —, críticos denunciam erosão da democracia, violações de direitos humanos e concentração de poder. O post que circula nas redes resume a visão positiva: remoção de juízes corruptos, queda drástica na criminalidade, avanço em infraestrutura e forte apoio popular. Mas a realidade é mais complexa.
Queda histórica na violência: o grande feito de Bukele
Os números são impressionantes e inegáveis segundo dados oficiais e organizações independentes:
Em 2015, a taxa de homicídios chegou a 103–106 por 100 mil habitantes.
Em 2025, caiu para 1,3 por 100 mil, com apenas 82 assassinatos registrados em todo o país — o menor índice da história salvadorenha.
Isso representa uma redução de mais de 98% em uma década. Em 2024 foram 114 homicídios (taxa de 1,9).
O principal instrumento foi o Plano de Controle Territorial e, especialmente, o estado de exceção decretado em março de 2022 e renovado mais de 45 vezes até 2026. A medida permitiu a prisão de mais de 90–91 mil suspeitos de ligação com as gangues MS-13 e Barrio 18. Prisões como o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo) viraram símbolo da política de “mão dura”.
Extorsões também caíram drasticamente e as gangues perderam o controle territorial que exerciam há décadas. Muitos salvadorenhos relatam poder sair de casa sem medo pela primeira vez em gerações.
Remoção de juízes e críticas institucionais
Bukele e seus aliados na Assembleia Legislativa (dominado pelo partido Nuevas Ideas) promoveram uma reforma profunda do Judiciário:
Em maio de 2021, destituíram os cinco juízes da Sala Constitucional da Suprema Corte e o procurador-geral.
Em agosto de 2021, aprovaram lei que forçou a aposentadoria de juízes acima de 60 anos ou com 30 anos de serviço — afetando cerca de 1/3 do Judiciário (cerca de 200 magistrados).
O governo alega que esses juízes eram corruptos ou lenientes com criminosos. A estratégia facilitou as prisões em massa e o prolongamento do estado de exceção. No entanto, organizações como Human Rights Watch, Anistia Internacional, IACHR (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) e InSight Crime criticam a medida como captura do Judiciário, violação da independência dos poderes e retrocesso democrático. Há relatos de prisões arbitrárias, tortura, mortes em custódia (mais de 400–482 casos documentados) e falta de transparência nos dados oficiais de homicídios (que excluem mortes em prisão, pela polícia ou em covas clandestinas).
O estado de exceção suspende garantias constitucionais (prisão sem mandado, sem defesa imediata, interceptação de comunicações etc.) e se tornou praticamente permanente — o que preocupa quem defende o Estado de Direito.
Infraestrutura, embelezamento e boom do turismo
Bukele investe pesado em obras visíveis que mudam a cara do país:
Surf City: projeto turístico na costa do Pacífico que revitalizou praias, hotéis e infraestrutura. Em 2025, El Salvador recebeu 4,1 milhões de turistas internacionais (recorde histórico), gerando cerca de US$ 3,5–3,6 bilhões em receita — crescimento de mais de 90% em relação ao pré-pandemia.
Aeroporto do Pacífico (em La Unión): construção iniciada em 2025, com investimento inicial de centenas de milhões de dólares. Primeira fase prevista para 2027. O projeto inclui modernização de portos e estradas no leste do país.
Revitalização do centro histórico de San Salvador, pontes, hotéis e eventos internacionais de surfe.
Essas iniciativas atraem turistas, investidores e até nômades digitais (impulsionados também pela adoção do Bitcoin como moeda legal). Cidades e praias estão mais limpas, organizadas e seguras — aspecto muito elogiado por visitantes e moradores.
O povo realmente adora?
Sim, as pesquisas mostram aprovação recorde:
Em fevereiro/março de 2026, institutos como CID Gallup, LPG Datos e Data Poll registraram aprovação entre 87% e 94% — uma das mais altas do mundo para um presidente em exercício.
Bukele foi reeleito em 2024 (apesar de a Constituição proibir reeleição imediata, o que também gerou controvérsia).
A segurança é o principal fator: para a maioria da população, o fim do terror das gangues pesa mais que críticas internacionais sobre direitos humanos ou independência judicial.
Conclusão: o que o “modelo Bukele” realmente prova?
Nayib Bukele provou que uma abordagem centralizada, dura e com foco em resultados visíveis consegue reduzir a criminalidade de forma dramática e impulsionar o turismo e a percepção de progresso em pouco tempo. El Salvador deixou de ser um dos países mais violentos do mundo e hoje é citado como exemplo por líderes que defendem “lei e ordem”.
No entanto, o preço foi alto: estado de exceção prolongado, prisões em massa com relatos de abusos, enfraquecimento do Judiciário, falta de transparência e críticas constantes de organizações de direitos humanos por possíveis violações sistemáticas (incluindo torturas e mortes em custódia). O modelo prioriza segurança e obras sobre freios e contrapesos democráticos tradicionais.
Em resumo: funciona para reduzir o crime e ganhar popularidade, mas levanta sérias questões sobre sustentabilidade institucional e respeito aos direitos fundamentais. Muitos salvadorenhos preferem viver em um país seguro a um com instituições “perfeitas” mas violento. Outros temem que o custo a longo prazo — autoritarismo e impunidade — possa ser maior que os ganhos atuais.
O debate continua aberto. Enquanto Bukele celebra o “milagre salvadorenho”, o mundo observa se o modelo é replicável ou se representa um caminho perigoso para outros países da região.
Fontes principais: dados oficiais do governo de El Salvador, Statista, InSight Crime, Human Rights Watch (World Report 2026), CID Gallup, Ministério do Turismo de El Salvador, Wikipedia (compilação de estatísticas), AP News e relatórios da IACHR.
O caso segue em evolução, especialmente com o estado de exceção ainda em vigor e novas obras em andamento.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Afp