APÓS PREGAR CONTRA POLITIZAÇÃO DA FÉ, LULA PARTE PARA OFENSIVA RELIGIOSA EM BUSCA DE VOTOS EVANGÉLICOS

REDAÇÃO

Ausência na Marcha para Jesus e lançamento de carta direcionada aos evangélicos reacendem debate sobre estratégia eleitoral do PT para 2026.

São Paulo — Em meio ao calendário eleitoral de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por não comparecer à Marcha para Jesus, realizada no dia 4 de junho em São Paulo, e justificou a ausência afirmando que não participaria de eventos religiosos em ano de eleição para evitar a impressão de que estaria se aproveitando politicamente da fé alheia.
Em ligação transmitida durante o ato, Lula reforçou que a Marcha não seria lugar para comício e enviou como representante o advogado-geral da União, Jorge Messias. A declaração transmitiu a imagem de um líder que buscava preservar o caráter sagrado do evento.
Poucos dias depois, porém, o Partido dos Trabalhadores (PT) apresentou uma nova “Carta aos Evangélicos”, elaborada em encontro nacional realizado em Brasília. O documento, repleto de versículos bíblicos e referências à fé, defende pautas do governo, elogia iniciativas como o reconhecimento da cultura gospel e busca aproximar o partido do segmento evangélico, tradicionalmente resistente à esquerda.
A sequência de fatos gerou críticas de opositores e analistas, que apontam contradição clara: enquanto Lula se distanciava publicamente de qualquer exploração eleitoral da religiosidade, o PT lançava uma iniciativa abertamente dirigida a esse eleitorado às vésperas da disputa. Para críticos, o movimento revela cálculo político puro, com o uso estratégico de linguagem religiosa para tentar reduzir a rejeição de Lula entre evangélicos — um dos maiores desafios do presidente na corrida pela reeleição.
A articulação ocorre em um momento em que pesquisas internas e externas indicam dificuldade persistente do petista em conquistar apoio maciço desse público, que cresceu significativamente nos últimos anos. A carta repete estratégia já adotada em 2022, mas agora com maior ênfase em meio ao acirramento da campanha.
O contraste entre o discurso de moderação na Marcha para Jesus e a ofensiva partidária imediata após o evento reforça, para detratores, a percepção de que a gestão petista trata a fé mais como variável eleitoral do que como esfera a ser respeitada. Até o momento, nem o Planalto nem o PT se manifestaram sobre a aparente dissonância entre as duas ações.
Foto: Folha de SP