Licitação da Assembleia Legislativa prevê compra de quase 50 mil itens personalizados e levanta questionamentos sobre prioridades administrativas, transparência e uso de recursos públicos em meio a dificuldades enfrentadas pela população cearense.
Fortaleza, 11 de junho de 2026 — Em meio à pior crise fiscal dos últimos anos e com o estado lutando para garantir serviços básicos à população, a Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), sob a presidência do deputado Romeu Aldigueri (PSB), decidiu priorizar o conforto visual da Casa. A instituição abriu licitação para gastar até R$ 1,794 milhão em bonés, camisas e viseiras personalizadas — um valor que beira os R$ 2 milhões e que causa indignação entre contribuintes e analistas.
O processo, classificado como Registro de Preços, prevê a aquisição de cerca de 40 mil camisas, 5 mil bonés e 5 mil viseiras com logomarcas e identificação da Alece. Os números representam um salto superior a 140% em relação a contratações anteriores, sem que a presidência tenha apresentado estudos técnicos consistentes de demanda ou necessidade real para tamanha quantidade de itens. Documentos internos revelam ainda discrepâncias de até R$ 299 mil entre o Estudo Técnico Preliminar e o valor registrado no sistema oficial de compras, o que levanta suspeitas sobre a lisura e a transparência do certame.
Especialistas consultados por veículos de imprensa classificam a iniciativa como um claro descolamento da realidade cearense. Enquanto milhares de cearenses aguardam por cirurgias, leitos de UTI e medicamentos, e enquanto municípios enfrentam dificuldades para pagar professores e policiais, a gestão Aldigueri opta por investir pesado em brindes institucionais. O momento é especialmente delicado: 2026 é ano de eleições municipais, e os itens personalizados podem facilmente servir como ferramenta de visibilidade e propaganda política disfarçada.
Críticos apontam ainda outras irregularidades no edital. A dispensa de exigência de amostras físicas para produtos personalizados aumenta significativamente o risco de recebimento de material de baixa qualidade, gerando potencial desperdício de recursos públicos. Além disso, a exclusão de cotas para micro e pequenas empresas e a proibição de consórcios reduzem a competitividade, favorecendo grandes fornecedores em detrimento da economia local.
Romeu Aldigueri, que assumiu a presidência da Alece com discurso de austeridade, modernização e transparência, agora coleciona questionamentos sobre o uso do dinheiro público. Até o momento, a Assembleia não apresentou respostas convincentes aos questionamentos da imprensa sobre a real finalidade dos quase 50 mil itens e nem justificou o elevado volume de peças diante das limitações orçamentárias do estado.
Para analistas políticos, o caso reforça um padrão preocupante no Legislativo cearense: a cultura de privilégios e autopromoção em detrimento das demandas populares. “É difícil explicar para a mãe que passa a noite na fila de um hospital por que a Assembleia precisa de dezenas de milhares de bonés caros”, resumiu um especialista em gestão pública ouvido reservadamente.
A população cearense, cada vez mais atenta ao uso de seus impostos, cobra explicações claras e imediatas. Enquanto isso, a licitação segue em andamento e pode resultar na assinatura de ata que permitirá compras ao longo dos próximos meses — justamente no auge do período eleitoral.
O caso dos bonés e camisas de Aldigueri tende a se tornar mais um capítulo polêmico na relação entre o contribuinte cearense e seus representantes. Em tempos de escassez, gastar quase R$ 2 milhões em “uniformes institucionais” não é apenas uma questão de prioridade: é um sintoma claro do descompasso entre o discurso e a prática de quem ocupa posições de poder no Ceará.
Foto: Divulgação