Senador, candidato à reeleição, defendeu o deputado federal e seu primeiro suplente ao afirmar que ser investigado ou denunciado “não quer dizer nada” e atribuiu as acusações a adversários políticos.
Senador candidato à reeleição minimiza acusações graves contra Júnior Mano e prefere atribuir denúncias a “oposição”
Em mais um episódio de defesa incondicional de aliados, o senador Cid Gomes (PSB) saiu em campo nesta segunda-feira (31) para relativizar a gravidade das acusações que pesam sobre o deputado federal Júnior Mano, seu primeiro suplente na chapa ao Senado. Investigado pela Polícia Federal por suposto desvio de emendas parlamentares e já alvo de operações da corporação, Mano foi tratado pelo candidato à reeleição como vítima de perseguição política, e não como alguém que precisa prestar contas à sociedade.
Durante sabatina no programa Bom Dia Ceará, da TV Verdes Mares, Cid foi direto: “A pessoa ser investigada ou ser denunciada não quer dizer nada, a não ser que tenha uma oposição, alguém que não gosta dele e fez uma denúncia sobre ele. No caso, a gente sabe quem foi, nome e sobrenome que fez uma denúncia sobre ele”. A declaração, proferida com naturalidade, revela o grau de desdém com que o senador trata o fato de seu suplente figurar em inquérito federal por crimes que envolvem recursos públicos.
Não bastasse minimizar a investigação, Cid ainda elevou o status de Mano. Segundo o senador, o deputado seria uma “referência” para prefeitos e lideranças nos municípios cearenses, e de todas elas teria ouvido apenas “depoimentos positivos”. Em outras palavras, enquanto a Polícia Federal apura possíveis desvios de emendas, o candidato à reeleição prefere transformar o investigado em exemplo de liderança.
A postura de Cid não é apenas política: é sintomática de uma cultura em que a indagação institucional vale menos que a lealdade partidária. Em vez de cobrar esclarecimentos, transparência ou mesmo o afastamento cautelar de um nome sob suspeita que pode vir a ocupar uma cadeira no Senado, o senador opta pelo escudo retórico. A mensagem é clara: ser alvo da PF não passa de detalhe irrelevante quando o investigado integra a própria chapa.
Vale lembrar que, antes de assumir a candidatura à reeleição, Cid chegou a defender o nome de Júnior Mano para disputar o Senado. A troca de posições, segundo o próprio senador, só ocorreu após “apelo” do deputado. Agora, com a chapa fechada, a prioridade parece ser blindar o suplente e, por tabela, a própria estrutura política de qualquer desgaste eleitoral.
O caso expõe, mais uma vez, o abismo entre o discurso de moralidade pública e a prática cotidiana da política cearense. Enquanto a sociedade assiste a operações da Polícia Federal e a denúncias de desvio de recursos, líderes como Cid Gomes preferem relativizar, atribuir motivações políticas às acusações e seguir em frente como se nada de grave estivesse em jogo. A pergunta que fica é simples e incômoda: até quando a investigação da PF será tratada como “nada” por quem deveria zelar pela lisura do mandato que ambiciona renovar?
Foto: Thiago Gadelha