Inadimplência das pessoas físicas no crédito livre alcança 8% em agosto, maior nível da série histórica do Banco Central, enquanto endividamento das famílias chega a 49,9% da renda acumulada em 12 meses
A inadimplência das pessoas físicas no crédito livre atingiu 8% em agosto de 2026, estabelecendo um novo recorde na série histórica iniciada em 2011. O indicador avançou 0,2 ponto percentual em relação ao mês anterior e considera operações com parcelas em atraso superior a 90 dias, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta terça-feira (29).
Os números revelam uma deterioração relevante das condições financeiras das famílias brasileiras. Considerando o conjunto das operações de crédito destinadas às pessoas físicas, a inadimplência avançou de 5,8% para 6% em agosto, enquanto o endividamento das famílias alcançou 49,9% da renda acumulada em 12 meses.
O cenário ocorre em meio ao elevado custo dos empréstimos no país. A taxa média de juros das novas concessões chegou a 32,3% ao ano em agosto, enquanto no crédito livre alcançou 48,5%. O spread bancário também avançou, chegando a 21,2 pontos percentuais, aumentando a pressão sobre consumidores que precisam recorrer ao sistema financeiro.
Algumas modalidades apresentam situação ainda mais delicada. No cartão de crédito rotativo, por exemplo, a inadimplência chegou a patamares superiores a 60%, enquanto o cartão de crédito considerado de forma mais ampla registrou índice de 10%. O Banco Central considera inadimplentes, nessas estatísticas, as operações que apresentam pelo menos uma parcela com atraso superior a 90 dias.
Os números surgem em um momento politicamente sensível, a poucos dias do primeiro turno das eleições, e devem alimentar o debate entre governo e oposição sobre a situação econômica das famílias. Críticos da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva podem utilizar o avanço da inadimplência para questionar os resultados das políticas destinadas à renegociação de dívidas e à redução do endividamento.
O governo federal, por sua vez, vem ampliando iniciativas do Desenrola Brasil. Uma nova etapa do programa prevê até R$ 15 bilhões para aquisição de carteiras de dívidas e posterior renegociação com consumidores, numa tentativa de alcançar milhões de brasileiros que permanecem inadimplentes.
Apesar das iniciativas governamentais, o novo recorde no crédito livre mostra que o problema continua pressionando parte significativa das famílias. O comprometimento da renda com dívidas estava em 28,7%, enquanto o endividamento permanecia próximo de metade da renda acumulada em 12 meses, indicadores que ajudam a dimensionar a pressão financeira enfrentada pelos consumidores.
A situação também evidencia os efeitos dos juros elevados sobre quem depende de modalidades mais caras de financiamento. Em um ambiente no qual empréstimos, cartão de crédito e outras linhas apresentam custos elevados, atrasos podem se transformar rapidamente em dívidas maiores, dificultando a recuperação financeira das famílias.
Politicamente, oposição e governo tendem a apresentar interpretações distintas dos números. Adversários de Lula podem apontar o recorde como evidência de dificuldades econômicas enfrentadas pela população, enquanto o governo pode destacar as medidas de renegociação e outras iniciativas destinadas a reduzir o peso das dívidas. Os dados do Banco Central demonstram a evolução dos indicadores de crédito, mas, isoladamente, não estabelecem que uma única política governamental seja responsável pelo aumento da inadimplência.
Com a campanha eleitoral entrando em sua reta decisiva, o recorde de 8% da inadimplência das pessoas físicas no crédito livre acrescenta um novo componente ao debate econômico. Juros elevados, endividamento próximo de 50% da renda acumulada e aumento dos atrasos colocam a situação financeira das famílias entre os temas que devem permanecer no centro das discussões sobre os rumos da economia brasileira.
Foto: Divulgação
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