EUA demonstram preocupação com possível participação chinesa em leilão no Porto de Santos

REDAÇÃO

Declaração de cônsul expõe disputa geopolítica por infraestrutura estratégica no Brasil

O cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Kevin Murakami, sinalizou preocupação com a possível participação de empresas chinesas no leilão do megaterminal Tecon 10, no Porto de Santos. Durante encontro com empresários do setor portuário na Baixada Santista, no início de março de 2026, o diplomata afirmou que o terminal não deveria cair em mãos indesejadas, frase interpretada pelos presentes como referência direta a grupos chineses que possam disputar a concessão.
O Tecon 10 é um dos principais projetos de expansão do Porto de Santos, o maior da América Latina. O empreendimento prevê a construção de um novo terminal de contêineres no bairro do Saboó, com área de 621 mil metros quadrados e quatro berços de atracação capazes de receber os maiores navios porta-contêineres do mundo. A concessão será de 25 anos, com investimento mínimo estimado em mais de R$ 6 bilhões e lance inicial fixado em R$ 500 milhões. O leilão, que já sofreu sucessivos adiamentos por questões regulatórias e discussões no Tribunal de Contas da União e na Agência Nacional de Transportes Aquaviários, está previsto para o segundo semestre de 2026.
A declaração de Murakami gerou surpresa entre os empresários presentes, segundo relatos publicados pela Folha de S.Paulo e outros veículos. O cônsul destacou a importância estratégica do porto de Santos para os Estados Unidos, incluindo seu papel no combate ao crime organizado e na geopolítica regional. Ele criticou a possibilidade de um leilão que dê vantagem a empresas chinesas estatais, argumentando que isso poderia colocar em risco a soberania brasileira sobre sua principal porta de entrada e saída de mercadorias.
Ao ser questionado pela imprensa após a publicação das reportagens, o consulado americano negou exercer pressão direta sobre o processo licitatório brasileiro. No entanto, confirmou preocupações do governo dos Estados Unidos com a participação de companhias chinesas em infraestruturas críticas, citando questões de segurança, soberania nacional, competição justa e alavancagem estratégica em longo prazo.
A China tem demonstrado interesse explícito no projeto. A Cosco Shipping, uma das maiores armadoras do mundo e controlada pelo governo chinês, realizou contatos com autoridades brasileiras em 2025 para manifestar disposição de participar do leilão. Atualmente, regras do edital impedem a participação de empresas que já operam terminais no Porto de Santos, o que afeta tanto a Cosco quanto outras armadoras como Maersk e MSC, que têm participação no terminal da Brasil Terminal Portuário.
O episódio reflete tensões geopolíticas mais amplas entre Estados Unidos e China pela influência em infraestruturas estratégicas na América Latina. O governo brasileiro, por meio do Ministério de Portos e Aeroportos, trabalha para definir o edital final, equilibrando abertura à concorrência e restrições regulatórias. O ministro Silvio Costa Filho confirmou que o leilão ocorrerá no segundo semestre, após negociações para resolver impasses no Tribunal de Contas da União.
O caso expõe o debate sobre soberania em concessões de ativos críticos e o impacto de disputas globais em decisões de infraestrutura no Brasil. Até o momento, não há data exata para a publicação do edital ou realização do certame.
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