Valores pagos por serviços de compliance superam em até 645 vezes os de outros profissionais e levantam questionamentos
A revelação do Estadão de que o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes, do STF, recebeu honorários até 645 vezes superiores aos pagos a outros advogados pela mesma tarefa de revisão de compliance do Banco Master expõe, de forma crua, o fosso entre o discurso de integridade pública e a prática privada no coração do Poder Judiciário.
Enquanto o banco, envolvido em escândalos de fraudes bilionárias e posteriormente liquidado, desembolsava quantias astronômicas, na casa dos R$ 129 milhões em contratos semelhantes, para um escritório de porte modesto, com sócios incluindo a esposa e filhos do ministro, profissionais independentes cobravam frações mínimas pelo trabalho idêntico.
Essa disparidade não sugere mera eficiência ou expertise singular, mas levanta suspeitas fundadas de que o nome e a influência de Moraes funcionaram como um atalho lucrativo, transformando compliance em mera formalidade cara e questionável.
Em um país onde o Judiciário cobra austeridade fiscal e moralidade alheia com rigor implacável, contratos assim alimentam a percepção de que, para alguns, as regras de transparência e impessoalidade são flexíveis, um sintoma grave de captura privada do Estado que erode ainda mais a já combalida confiança nas instituições.
Texto: @jornalista.rodolfo.oliveira
Foto: Folhapress