MENDONÇA APONTA “ATUAÇÃO REITERADA” PARA PRESERVAR “NEGÓCIO ESPÚRIO” NO ESCÂNDALO BRB-BANCO MASTER

REDAÇÃO

Relator do caso no STF cita indícios de fraudes reiteradas e determina avanço das investigações na Operação Compliance Zero

Brasília, 16 de abril de 2026
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do inquérito que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, utilizou termos fortes em decisão judicial para descrever a conduta de investigados na tentativa de compra da instituição pelo Banco de Brasília (BRB). Segundo o magistrado, não se tratava de “erro isolado”, mas de “atuação funcional reiterada voltada à preservação do negócio espúrio”.
A expressão consta em contexto de despachos e representações da Polícia Federal (PF) analisados por Mendonça, que tem atuado como relator do Inquérito 5026 após assumir o caso, inicialmente sob responsabilidade do ministro Dias Toffoli. A investigação, ligada à Operação Compliance Zero, apura um esquema de concessão de créditos fictícios, venda de ativos “podres” sem lastro real, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.
Fraudes bilionárias e tentativa de negócio com o BRB
O Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, é acusado de inflar artificialmente seu balanço por meio de operações fraudulentas, gerando prejuízos estimados em até R$ 12 bilhões ou mais. Entre as irregularidades, a PF e o Banco Central identificaram a venda de carteiras de crédito consignado supostamente sem lastro para instituições como o BRB, banco público do Distrito Federal.
Em março de 2025, o BRB anunciou intenção de adquirir cerca de 58% do capital do Banco Master por aproximadamente R$ 2 bilhões. A operação, porém, foi alvo de questionamentos por órgãos de controle e acabou não se concretizando. As investigações apontam que o BRB teria injetado bilhões em ativos questionáveis do Master, com indícios de que recursos foram usados de forma irregular.
Mendonça já prorrogou o inquérito por mais 60 dias a pedido da PF, em março de 2026, para permitir a análise aprofundada de documentos, computadores e celulares apreendidos nas fases da operação. Os investigadores consideram as diligências “imprescindíveis” para esclarecer os fatos.
Prisões e novas fases da Operação Compliance Zero
A investigação ganhou força com diversas fases da Operação Compliance Zero (e desdobramentos como a Operação Barco de Papel):
Em novembro de 2025, a primeira fase levou à prisão de Daniel Vorcaro e outros integrantes da cúpula do Banco Master. Na ocasião, também houve afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Em março de 2026, Mendonça determinou nova prisão preventiva de Vorcaro, citando risco concreto de interferência nas apurações, além de menções a uma suposta “milícia privada” para intimidação.
Nesta quinta-feira (16 de abril de 2026), a PF cumpriu nova prisão preventiva contra Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Segundo a polícia, ele teria recebido propina de cerca de R$ 146 milhões – paga por meio da aquisição de seis imóveis de luxo – para viabilizar e acelerar a negociação entre o BRB e o Banco Master. A PF identificou o “caminho do dinheiro” via triangulação envolvendo empresas e imóveis.
Além de Costa, foi preso o advogado Daniel Monteiro, apontado como “arquiteto jurídico” do esquema de lavagem de dinheiro. Mendonça autorizou as medidas com base em mensagens e provas apreendidas que demonstrariam a participação ativa dos envolvidos.
Outros desdobramentos
O caso também envolve críticas à supervisão do Banco Central, acareações entre Vorcaro e ex-executivos do BRB, e pedidos de ressarcimento por parte do próprio BRB em eventual delação premiada. Vorcaro, que chegou a usar tornozeleira eletrônica em fases anteriores, nega irregularidades e afirma não ter recebido notificações claras do BC antes das prisões.
Mendonça tem tomado decisões como manutenção de prisões, autorização de perícias em dezenas de dispositivos eletrônicos e regras de sigilo, além de convocar reuniões com delegados da PF para acompanhar o caso.
Como toda investigação em andamento, as apurações ainda não resultaram em condenações definitivas. Os investigados têm direito de defesa e podem apresentar suas versões nos autos. A PF continua analisando material apreendido, e novas fases ou delações podem surgir nos próximos meses.
O escândalo tem repercussão política e institucional em Brasília, com menções em CPIs e debates sobre governança de bancos públicos e fiscalização do sistema financeiro nacional.
Fontes: decisões do STF, comunicados da PF, reportagens da Agência Brasil, G1, Estadão, Veja e outros veículos.
Foto: STF