Relatos de violência contra mulheres sobem 17% em 2025 no Brasil: um alerta para a persistência da violência de gênero
Brasília, 18 de abril de 2026
Os registros de violência contra mulheres no Brasil registraram um aumento significativo em 2025. De acordo com dados da Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), do Ministério das Mulheres, foram contabilizados 155.111 registros de violência, o que representa uma alta de 17,4% em comparação com 2024. Isso equivale a uma média de 425 denúncias por dia.
O total de violações (considerando que um mesmo caso pode envolver múltiplos tipos de violência) chegou a 679.058, com crescimento de 18,5%. Os atendimentos na central explodiram: 1.088.900 no ano inteiro, quase 3 mil por dia, um salto de 45% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, a tendência se manteve: 45.735 registros (+23%) e 301.044 atendimentos (+14%).
Perfil da violência: psicológica domina, mas física e sexual preocupam. A violência psicológica foi a mais registrada, com cerca de 339 mil casos (49,9% do total). Em seguida, aparecem a violência física (mais de 104 mil casos, 15,3%), patrimonial (36.938 casos, 5,4%) e sexual (20.534 casos, 3%, incluindo 8.172 de importunação sexual). A violência vicária (quando o agressor usa filhos ou familiares para atingir a mulher) somou 7.064 casos (4,55%).
Cerca de 75,9% dos casos se enquadram na Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006). Quase 70% das agressões ocorreram no ambiente doméstico: 40,76% na residência da vítima e 28,58% na casa compartilhada com o agressor. A maioria dos relatos foi feita pela própria vítima (66,3%), seguida por denúncias anônimas ou de terceiros (familiares, amigos ou vizinhos).
Perfil das vítimas:
Maioria entre 26 e 44 anos (37,19% dos registros, com pico na faixa de 40-44 anos).
Mulheres negras (pretas e pardas) representaram 43,16% dos casos informados (pardas: 33,46%; pretas: 9,70%). Brancas: 32,54%.
Em 20,91% dos relatos, as agressões duravam mais de um ano.
Regiões com mais registros: Sudeste (47,4%), seguido por Nordeste (18,2%), Centro-Oeste (11,5%), Sul (10,2%) e Norte (6%). Os estados líderes foram São Paulo (34.476), Rio de Janeiro (22.757) e Minas Gerais (13.421). O Distrito Federal apareceu em 4º lugar nacional, com 9.270 registros.
Feminicídios batem recorde: 4 mulheres mortas por dia. Os relatos de violência não letal caminham junto com o aumento da violência letal. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da série histórica desde a tipificação do crime em 2015 (Lei 13.104).
Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): 1.568 vítimas, alta de 4,7% em relação a 2024. 62,6% das vítimas eram mulheres negras. Pequenas cidades apresentaram taxas proporcionais mais altas.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP/Sinesp): varia entre 1.470 e 1.561 casos, com média de quatro mulheres assassinadas por dia por motivo de gênero — um crescimento de cerca de 316% em 10 anos.
Outros levantamentos, como o do Laboratório de Estudos de Feminicídios da UEL (LESFEM), indicam números ainda maiores quando incluem tentativas: 6.904 vítimas de feminicídios consumados e tentados em 2025 (+34% em relação a 2024). A maioria ocorre dentro de casa (cerca de 64-66%), cometida por companheiros ou ex-companheiros (cerca de 80%). Armas brancas são frequentes.
Estudo da Rede de Observatórios da Segurança (“Elas Vivem”) monitorou nove estados e registrou 4.558 mulheres vítimas de violência em 2025 (+9%), com média de 12 vítimas por dia. Houve ainda 950 casos de violência sexual/estupro (+56%) e cerca de 550 feminicídios/transfeminicídios.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado, 2025) estimou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar ao longo do ano.
Contexto mais amplo e desafios
Apesar de avanços legislativos — como a sanção da Lei 15.384/2026, que incluiu o vicaricídio como crime hediondo com pena de até 40 anos —, os números revelam uma violência estrutural persistente. Fatores como subnotificação, descumprimento de medidas protetivas (centenas de milhares concedidas anualmente) e concentração em ambientes domésticos agravam o problema. Mulheres negras são desproporcionalmente afetadas, refletindo desigualdades raciais e socioeconômicas. A violência sexual também preocupa: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (edições recentes) registra recordes históricos de estupros e estupros de vulnerável, com grande parte das vítimas sendo meninas e adolescentes.
Especialistas apontam que o aumento nos registros pode indicar maior conscientização e busca por ajuda (via Ligue 180, Disque 100, 190 ou delegacias), mas também revela falhas na prevenção e na rede de proteção. O que fazer? Canais de denúncia e políticas públicasO Ministério das Mulheres reforça que o atendimento é gratuito e confidencial:
Ligue 180 — 24 horas, todos os dias (também por WhatsApp: (61) 9610-0180 ou e-mail).
Polícia Militar: 190
Disque 100
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) ou Casas da Mulher Brasileira.
Em 2025, o governo federal e estados ampliaram discussões sobre pactos contra o feminicídio e melhorias em sistemas de monitoramento (como a plataforma “Mulher Segura” do MJSP).
Conclusão
O salto de 17% nos relatos de violência contra mulheres em 2025, aliado ao recorde de feminicídios, configura um cenário de emergência. Os dados oficiais mostram que a violência de gênero não é um problema isolado, mas uma questão estrutural que exige ações integradas entre segurança pública, saúde, assistência social e educação. Enquanto leis avançam, a implementação efetiva de políticas preventivas, capacitação de agentes e combate à impunidade seguem como desafios centrais para proteger as brasileiras. Fontes principais consultadas:
Ministério das Mulheres / Ligue 180 (dados primários do artigo base).
Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Retrato dos Feminicídios e Anuário).
Ministério da Justiça e Segurança Pública (Sinesp).
DataSenado, Agência Brasil, Rede de Observatórios da Segurança e relatórios estaduais.
Denunciar salva vidas. Se você ou alguém conhecido está em situação de violência, busque ajuda imediatamente.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Reprodução