MESSIAS CONTAVA COM DEUS E COM R$ 12 BI EM EMENDAS: SENADO DÁ BANHO DE ÁGUA FRIA EM LULA

REDAÇÃO

Indicação ao stf é rejeitada e rompe tradição da nova república

O Senado da República protagonizou nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, um dos episódios mais marcantes da política recente ao impor uma derrota significativa ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em votação secreta realizada no plenário, os senadores rejeitaram a indicação de Jorge Messias, atual Advogado-Geral da União, para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF), vaga aberta após a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. O placar final — 42 votos contrários e 34 favoráveis — não apenas impediu a nomeação como também interrompeu uma tradição consolidada desde a redemocratização: desde a promulgação da Constituição de 1988, nenhuma indicação presidencial para a Corte havia sido barrada pelo Senado.
A derrota ganha contornos ainda mais expressivos diante do esforço político empreendido pelo Palácio do Planalto nas semanas que antecederam a votação. Integrantes do governo intensificaram negociações com lideranças partidárias e parlamentares independentes, em uma tentativa de assegurar os 41 votos necessários para a aprovação do nome. Como parte dessa articulação, houve a liberação acelerada de aproximadamente 12 bilhões de reais em emendas parlamentares, medida frequentemente utilizada como instrumento de construção de apoio político no Congresso. Apesar disso, o resultado evidenciou uma fragilidade na base governista e revelou fissuras importantes na relação entre o Executivo e o Senado.
A indicação de Jorge Messias já enfrentava resistências desde sua formalização. Embora fosse considerado um nome de confiança pessoal do presidente Lula e tivesse trajetória consolidada na advocacia pública, setores do Senado manifestavam reservas quanto ao seu perfil e à sua proximidade política com o governo. Durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Messias respondeu a questionamentos sobre temas sensíveis, como independência do Judiciário, ativismo judicial e relação entre os Poderes, mas não conseguiu dissipar completamente as dúvidas de parte dos parlamentares. Nos bastidores, senadores de diferentes espectros ideológicos articulavam votos contrários, sinalizando que a aprovação não seria tranquila.
O episódio remete a um precedente histórico raro. A última vez que o Senado rejeitou indicações para o Supremo Tribunal Federal ocorreu em 1894, durante o governo do marechal Floriano Peixoto, quando cinco nomes foram barrados em meio a uma grave crise institucional da Primeira República. Desde então, ao longo de mais de um século — incluindo todo o período da Nova República — prevaleceu a prática de aprovação das indicações presidenciais, ainda que por vezes com críticas e resistências pontuais. A decisão desta quarta-feira, portanto, rompe um padrão histórico e inaugura um novo capítulo na dinâmica entre Executivo e Legislativo.
Analistas políticos avaliam que o resultado expõe não apenas dificuldades momentâneas de articulação do governo, mas também um cenário mais amplo de reconfiguração de forças no Congresso Nacional. O Senado, em particular, tem demonstrado maior autonomia e disposição para confrontar decisões do Executivo, refletindo um ambiente político mais fragmentado e menos previsível. A rejeição de Messias pode ser interpretada como um sinal de que o governo precisará recalibrar sua estratégia de relacionamento com os parlamentares, especialmente em votações consideradas sensíveis.
Do ponto de vista institucional, a decisão não encerra o processo de escolha para a vaga no STF. Cabe agora ao presidente Lula indicar um novo nome, que deverá passar novamente por sabatina na Comissão de Constituição e Justiça e, posteriormente, por votação no plenário do Senado. O episódio, no entanto, tende a influenciar diretamente a escolha do próximo indicado, que possivelmente precisará reunir não apenas qualificação técnica, mas também maior capacidade de construir consensos políticos dentro da Casa.
Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal segue com uma cadeira vaga, o que pode impactar temporariamente o funcionamento da Corte em julgamentos relevantes. Nos bastidores de Brasília, já se intensificam as especulações sobre possíveis substitutos, incluindo nomes do meio jurídico, acadêmico e até mesmo de tribunais superiores. A escolha do próximo candidato será observada com atenção redobrada, tanto pelo meio político quanto pela sociedade, diante do precedente estabelecido.
A rejeição de Jorge Messias, portanto, ultrapassa o âmbito de uma indicação específica e se consolida como um evento de grande repercussão política e institucional. Ela evidencia os desafios do governo na construção de maioria no Senado, reforça o papel da Casa como instância de controle efetivo sobre indicações presidenciais e reabre o debate sobre os critérios e as dinâmicas envolvidas na escolha de ministros para a mais alta Corte do país.
Foto: Agência Senado