SEM AVANÇO NAS NEGOCIAÇÕES, GOVERNO LULA JÁ SE PREPARA PARA TARIFAÇO AMERICANO

REDAÇÃO

Equipe econômica vê crescer o risco de novas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já trabalha internamente com um cenário considerado preocupante nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Integrantes da equipe econômica e diplomática avaliam que as chances de evitar novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros diminuíram significativamente nos últimos dias, diante dos sinais emitidos por Washington e do andamento da investigação comercial conduzida pelo governo de Donald Trump.
A expectativa em Brasília é que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) divulgue nos próximos dias as conclusões preliminares da investigação aberta contra o Brasil com base na chamada Seção 301 da legislação comercial americana. O instrumento é tradicionalmente utilizado para justificar medidas punitivas contra países considerados responsáveis por práticas classificadas pelos EUA como desleais ou prejudiciais aos interesses americanos.
Nos bastidores, integrantes do governo reconhecem que as negociações realizadas nas últimas semanas não produziram os avanços esperados. Embora o Palácio do Planalto tenha evitado manifestações públicas mais contundentes, o clima entre autoridades brasileiras é de crescente preocupação. A percepção é que a decisão americana está sendo conduzida por critérios predominantemente políticos, reduzindo o espaço para uma solução técnica ou negociada.
Fontes ligadas às discussões afirmam que Brasília apostava em um período mais amplo de diálogo após os entendimentos alcançados entre Lula e Trump durante conversas realizadas no mês passado. A expectativa era que os dois países utilizassem o prazo acordado para construir uma proposta capaz de encerrar a investigação e evitar medidas comerciais mais agressivas. No entanto, a possibilidade de anúncio antecipado de tarifas elevadas passou a ser tratada como cada vez mais concreta.
Dentro do governo, o temor é que uma eventual decisão dos Estados Unidos seja interpretada como uma ruptura do espírito das negociações que vinham sendo conduzidas entre as duas administrações. Além dos impactos econômicos, a medida teria forte repercussão política e poderia inaugurar uma nova fase de tensão nas relações bilaterais.
A avaliação de interlocutores do governo é que o Brasil entrou nas negociações em posição desfavorável. Enquanto a administração Trump demonstra disposição para endurecer sua política comercial e ampliar instrumentos de pressão sobre parceiros estrangeiros, o governo brasileiro enfrenta dificuldades para apresentar concessões que atendam às demandas americanas sem gerar desgaste interno.
Entre os temas citados pelos Estados Unidos estão o funcionamento do Pix, questões relacionadas ao mercado de etanol, preocupações ambientais e temas ligados à proteção da propriedade intelectual. Embora o governo brasileiro conteste parte das acusações, há o reconhecimento de que a agenda de reivindicações americanas é ampla e complexa, dificultando a construção de uma saída rápida.
Nos corredores de Brasília, cresce a percepção de que o país poderá enfrentar um novo ciclo de barreiras comerciais impostas pela maior economia do mundo. O receio é que setores importantes da indústria e do agronegócio sejam atingidos, comprometendo exportações, investimentos e perspectivas de crescimento em algumas áreas estratégicas.
Diante desse cenário, o governo já discute alternativas para responder a uma eventual decisão americana, embora a prioridade continue sendo evitar uma escalada da crise. Ainda assim, o sentimento predominante entre integrantes da administração federal é de cautela e pessimismo.
Reservadamente, interlocutores admitem que as negociações não evoluíram no ritmo esperado e que o Brasil pode estar próximo de enfrentar uma derrota significativa na disputa comercial com os Estados Unidos. A expectativa agora é acompanhar os próximos movimentos de Washington e avaliar até que ponto ainda existe espaço para reverter uma decisão que, para muitos dentro do governo, parece cada vez mais encaminhada.
Foto: White House