FILHO DE SERVIDORA DA SEDUC É ACUSADO DE DESVIAR R$ 3 MILHÕES EM CONTRATOS FANTASMAS COM O GOVERNO DO CEARÁ

REDAÇÃO

Investigação aponta que empresa sem estrutura teria firmado mais de cem contratos com a educação estadual, a maioria por dispensa de licitação

Maracanaú (CE) – Mais um caso de suposta corrupção envolvendo contratos com o governo estadual do Ceará vem à tona e expõe, mais uma vez, os riscos do clientelismo e da falta de transparência na administração pública. Uma empresa apontada como “fantasma” por investigadores teria faturado cerca de R$ 3 milhões em acordos com a Secretaria da Educação (Seduc), por meio de uma rede familiar que incluía servidora de alto escalão na Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Crede 1), sediada em Maracanaú.
De acordo com a investigação da Polícia Civil, a empresa Cláudio Marcos de Sousa Eireli, também conhecida como VMF Construções e Serviços, assinou pelo menos 118 contratos com o Estado, a maioria por dispensa de licitação. A operação era comandada, segundo o inquérito, por Thiago Veras Mourão Freire, filho de Raimunda Aldemir Veras Mourão, que ocupava cargo de chefia no setor financeiro da Crede 1 na época dos fatos.
Os documentos acessados pela reportagem revelam que a firma não possuía estrutura mínima: sem veículos, sem funcionários registrados e sem sede compatível com o volume de serviços contratados. O suposto proprietário formal, um auxiliar de serviços gerais de baixa renda, teria apenas emprestado o nome a pedido do genro. Enquanto isso, Thiago, que atuava como enfermeiro em outro município com salário modesto, ostentava bens incompatíveis com sua renda declarada, incluindo veículos de alto valor e investimentos significativos.
Investigadores apontam indícios de lavagem de dinheiro por meio de transferências para familiares e servidores públicos ligados à Crede 1. A própria servidora Raimunda teria recebido valores e guardado documentos da empresa em sua residência. Outros servidores, incluindo a então coordenadora da unidade, também aparecem nos relatórios policiais.
O caso, que começou a ser apurado após denúncia anônima em 2022, ilustra um problema recorrente no serviço público brasileiro: a captura de recursos por grupos familiares e a fragilidade dos controles em modalidades simplificadas de contratação. Enquanto famílias carentes e contribuintes pagam a conta, esquemas como esse drenam milhões que deveriam ir para salas de aula, merenda e manutenção de escolas.
A Seduc informou que tomou medidas administrativas, como exonerações de cargos comissionados e suspensão dos contratos, além de auditoria interna. No entanto, o inquérito policial segue em andamento, e os envolvidos negam irregularidades, afirmando que se defenderão nos autos.
Casos assim reforçam a necessidade de maior rigor nas licitações, redução de burocracia aliada a fiscalização efetiva e punição exemplar para quem transforma o dinheiro público em negócio familiar. O contribuinte cearense merece mais do que promessas: merece eficiência e honestidade na gestão de seus impostos.
Foto: SEDUC