Operação da Polícia Federal e da CGU investiga suspeitas de desvios de recursos da saúde envolvendo a Coaph; apuração busca identificar empresas, beneficiários e possíveis irregularidades em contratos públicos
A Polícia Federal (PF), em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), deflagrou a Operação Coaptação para investigar suspeitas de desvios de até R$ 1 bilhão em recursos destinados à saúde no Ceará. A investigação tem como principal foco a Cooperativa de Atendimento Pré-Hospitalar (Coaph), cuja cúpula é apontada como centro de um suposto esquema de irregularidades financeiras. A dimensão dos valores investigados e a estrutura empresarial identificada pelos investigadores colocam o caso entre os episódios que exigem máxima transparência na gestão de recursos públicos.
Segundo informações da investigação, haveria mais de 80 empresas fictícias ou suspeitas de integrar a estrutura investigada, algumas ainda não plenamente identificadas. A operação resultou no cumprimento de 24 mandados de busca e apreensão, cinco mandados de prisão e duas medidas de sequestro de veículos. Entre os alvos estão dirigentes e pessoas ligadas à administração da cooperativa. O atual presidente, Montezuma Feitosa Alexandrino, também foi alvo de busca e apreensão, enquanto os investigadores apontam suspeitas de envolvimento em operações que teriam movimentado milhões de reais.
Um dos pontos que chama a atenção nesse caso é a ligação de Francisco Furtado com a cooperativa e sua relação familiar com o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT). Furtado ocupou o cargo de diretor técnico da Coaph até dezembro de 2024, quando se casou com a filha do atual prefeito. Posteriormente, com a chegada de Evandro Leitão à Prefeitura, ele deixou a diretoria e passou a atuar como funcionário da cooperativa. A sequência dos acontecimentos desperta interesse jornalístico e torna pertinente esclarecer qual era sua função na instituição e se ele teve alguma relação com os contratos ou operações financeiras investigados.
A proximidade familiar, por si só, não comprova qualquer irregularidade nem significa que o prefeito ou seu genro tenham participado do suposto esquema. No entanto, diante da gravidade das suspeitas e do volume de recursos públicos envolvidos, é legítimo questionar se houve contratos entre a Coaph e órgãos da administração municipal, quais valores foram pagos e quais mecanismos de fiscalização foram utilizados. A transparência sobre esses pontos é fundamental para afastar dúvidas e impedir que relações políticas ou familiares sejam usadas como justificativa para suspeitas sem comprovação.
Outro aspecto que merece atenção é a extensão da estrutura empresarial mencionada pelos investigadores. A existência de dezenas de empresas supostamente fictícias, caso confirmada no decorrer do inquérito, pode indicar um mecanismo complexo de movimentação financeira, exigindo rastreamento de pagamentos, identificação de beneficiários e análise dos contratos firmados com o poder público. É justamente nesse momento que a investigação precisa avançar para além das primeiras medidas policiais, esclarecendo quem teria autorizado as operações, quem recebeu os recursos e se houve participação de agentes públicos ou privados.
Agora, a sociedade cearense aguarda respostas. Quem foram os beneficiários dos recursos sob suspeita? Houve dinheiro público da Prefeitura de Fortaleza envolvido nos contratos investigados? Francisco Furtado teve alguma participação nas operações que estão na mira da Polícia Federal? E quais esclarecimentos a gestão de Evandro Leitão pode apresentar sobre eventuais relações contratuais com a cooperativa? São perguntas que precisam ser respondidas com documentos e fatos, sem julgamentos antecipados. Em um caso que envolve suspeitas bilionárias na área da saúde, o dever das autoridades é garantir uma apuração rigorosa, e o compromisso do poder público deve ser com a transparência e a prestação de contas à população.
Texto: @fabiianobraga
Foto: Divulgação