O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido nacionalmente como “Careca do INSS”, afirmou nesta sexta-feira (10) que está disposto a entregar nomes de políticos envolvidos no esquema de fraudes em descontos de aposentadorias e pensões, caso o empresário Maurício Camisotti não revele “tudo” em sua delação premiada à Polícia Federal.
“Se ele não falar tudo, eu vou ter que falar”, disse o Careca do INSS a um interlocutor na manhã de hoje, segundo reportagem exclusiva da coluna de Tácio Lorran, do Metrópoles.
O que está acontecendo agora
Maurício Camisotti assinou acordo de delação premiada com a PF nos últimos dias. Ele é apontado como um dos principais operadores do esquema (núcleo financeiro) e está preso desde 12 de setembro de 2025, mesma data da prisão do Careca do INSS.
A delação de Camisotti já foi enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) para homologação pelo ministro André Mendonça. Ela detalha fraudes, conexões políticas e o papel de figuras como o próprio Careca.
O Careca do INSS sente-se ameaçado: teme ser pintado como o “principal operador” enquanto políticos seriam poupados. Por isso, prepara-se para entregar nomes, especialmente de parlamentares dos partidos PL, PDT e Republicanos.
Fontes próximas ao lobista afirmam que ele cogita citar até o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Congresso, e até mesmo o empresário Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), filho do presidente.
Como funciona a “Farra do INSS”
O esquema, revelado inicialmente pelo Metrópoles e investigado pela Operação Sem Desconto (PF + CGU), consistia em descontos indevidos diretamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas.
Associações e sindicatos firmavam Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS e cobravam “mensalidades associativas” sem autorização real dos beneficiários. Estimativas da CGU apontam que mais de 6 milhões de aposentados podem ter sido lesados em até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
O Careca do INSS atuava como lobista e intermediário: articulava com servidores do INSS, sindicatos e associações, repassando propinas e recebendo comissões milionárias. Investigadores o descrevem como um dos principais articuladores do esquema, que teria movimentado dezenas de milhões de reais.
Seu patrimônio declarado saltou de R$ 159 mil em 2021 para R$ 9,5 milhões em 2024. A PF apreendeu com ele e sua família carros de luxo (Ferrari, McLaren, Porsche etc.), imóveis e milhões em contas.
Histórico do Careca do INSS
Preso preventivamente em 12 de setembro de 2025 na Operação Sem Desconto.
Já prestou depoimento à CPMI do INSS, onde negou irregularidades e se disse “empresário nato”, classificando o apelido “Careca do INSS” como “narrativa fantasiosa”.
Teve o filho preso em fase posterior da operação.
Desde fevereiro/março de 2026 vinha preparando uma proposta de delação, motivado pela prisão de familiares e pelo avanço das investigações.
Em março, autoridades avaliavam que, se Camisotti delatasse primeiro, o Careca poderia perder espaço para colaborar.
Agora, com a delação de Camisotti já assinada, o Careca acelera o movimento e ameaça “abrir o jogo” sobre o núcleo político.
Impacto político e próximos passos
A ameaça ganha peso porque:
A CPMI do INSS acompanha o caso de perto e já quebrou sigilos, ouviu testemunhas e aprovou acareações.
Há menções a repasses para empresas ligadas ao esquema e até pagamentos a pessoas próximas de Lulinha (como uma viagem a Portugal bancada pelo Careca, que Lulinha admite, mas nega envolvimento no esquema).
Outras delações estão em negociação: do ex-procurador federal Virgílio Oliveira Filho e do ex-diretor de Benefícios André Fidelis.
Se o Careca formalizar uma delação, ela pode atingir em cheio parlamentares que teriam atuado como “padrinhos” ou facilitadores do esquema dentro do Congresso e do INSS.
A PF e o STF devem avaliar a proposta do Careca. Especialistas avaliam que, se Camisotti já entregou muita coisa, o valor da colaboração do lobista pode diminuir — o que explica sua pressa e a ameaça pública.
Texto: Redação Diário 360
Foto: O Estadão