Entrada recorde de capital estrangeiro impulsiona real e bolsa, mas dúvidas fiscais mantêm cautela no mercado
Durante os encontros de primavera do Fundo Monetário Internacional em Washington, o Brasil ganhou status de queridinho dos investidores globais. Doloridos sobre o país lotaram, os estrangeiros apostaram pesadamente na valorização do real e a bolsa acumula registros nominais com entrada rica de capital externo. O real virou o comércio consensual do momento, tratado por alguns como o novo ouro, com recomendações para comprar a moeda contra euro e pesos de vizinhos sul-americanos. Economistas de grandes bancos estrangeiros comemoram a excitação. O Brasil aparece como ativo quase livre de risco em meio a um cenário global que privilegia commodities e emergentes.
Os fundos dedicados aos mercados emergentes mantêm posições acima da média no país em número recorde, superando até Coreia do Sul, China e Hong Kong. Tudo isso em um contexto de dólar mais fraco, alta de preços de energia e suposta transição política para governos mais à direita na região. O otimismo é tão conveniente. O país se beneficia de ser exportado líquido de petróleo e commodities em meio a conflitos no Oriente Médio, o que impulsiona receitas externas e protege o câmbio. O FMI até revisou para cima a projeção de crescimento do PIB brasileiro para 2026, chegando a 1,9%, enquanto cortou a estimativa global. Parece uma boa notícia, mas o número continua modesto e reflete mais um choque externo favorável a qualquer virtude interna de política econômica.
O problema é que essa diversão esconde o calcanhar de Aquiles brasileiro: o quadro fiscal descontrolado. Enquanto o real e as ações brilham, o mercado de juros fica para trás, pressionado por prêmios de risco elevados e incertezas nas contas públicas. A inflação ameaça voltar com qualquer reversão no dólar, limitando espaço para cortes de juros e piorando a trajetória da dívida em relação ao PIB.
O fiscal continua sendo o principal ponto de desconfiança, mesmo com tanta festa em Washington. Faltam poucos meses para a eleição presidencial, e parte do mercado já aposta que o resultado não irá derrubar ativos, desde que o ambiente externo permaneça benigno. Essa visão confortável ignora o histórico brasileiro de ciclos eleitorais marcados por populismo fiscal e expansão de gastos. A dependência excessiva de fatores externos — dólar fraco, commodities em alta, paz ou guerra alheia — revela fragilidade estrutural.
Quando o vento mudar, como sempre muda, o mesmo real que hoje é querido pode voltar a ser fonte de volatilidade. O Brasil não se tornou querido por méritos de reformas profundas ou disciplina fiscal. Ganhou atenção porque oferece commodities baratas, juros ainda atrativos e um ambiente de rotação de capitais longe dos Estados Unidos. Enquanto isso, o endividamento público segue em rota preocupante, com projeções do próprio FMI apontando para níveis elevados nos próximos anos.
O risco é que esse status temporário de favorito sirva apenas para adiar os ajustes necessários, ampliando a vulnerabilidade quando o ciclo externo mudar. O otimismo atual é real, mas frágil. Celebrar o Brasil como novo questionamento dos mercados globais sem enfrentar o desequilíbrio nas contas públicas é receita para concepção futura. O país vive mais um momento de ilusão cambial e bursátil, sustentado por ventos externos, enquanto os problemas atuais de sempre — gasto desenfreado, baixa produtividade e risco político — continuam intocados.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Reprodução