Acordo com participação da Procuradoria-Geral da República avança, mas demora nas negociações preocupa investigadores
O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, está no centro de uma das investigações financeiras mais relevantes dos últimos anos no Brasil. Preso preventivamente desde março de 2026 durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, Vorcaro negocia um acordo de delação premiada com a PF e a Procuradoria-Geral da República. Recentemente, sua defesa concluiu a proposta de colaboração, incluindo anexos com materiais e informações que deverão ser entregues sob sigilo às autoridades nos próximos dias.
A negociação da delação ganhou destaque por envolver uma atuação conjunta inédita entre a Polícia Federal e a PGR. Em março, Vorcaro assinou um termo de confidencialidade com os órgãos responsáveis pela investigação, enquanto sua defesa, liderada pelo advogado José Luís Oliveira Lima, o Juca, organizou uma força-tarefa para estruturar um acordo robusto. A proposta prevê dezenas de anexos, além do pagamento de multas e ressarcimentos que podem chegar à casa dos bilhões de reais.
Apesar disso, investigadores demonstram preocupação com a lentidão das tratativas. Integrantes da força-tarefa avaliam que o acordo só terá utilidade se Vorcaro apresentar informações inéditas e relevantes, superiores ao vasto material já apreendido pela investigação. Até o momento, cerca de quatro terabytes de dados foram recolhidos em celulares, computadores e outros dispositivos, cuja perícia ainda está em andamento.
O caso Banco Master envolve suspeitas de fraudes bilionárias relacionadas à emissão e comercialização de títulos de crédito falsos ou artificialmente inflados para captação irregular de recursos. As investigações também apontam conexões com fundos de investimento, corretoras como Reag e Truste, além de possíveis vínculos com desvios de recursos públicos e movimentações investigadas em operações ligadas ao Primeiro Comando da Capital. A Operação Compliance Zero já resultou em buscas, prisões e até na liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central.
Daniel Vorcaro permanece preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, enquanto outros ex-executivos do banco já conseguiram liberdade em etapas anteriores da operação. A expectativa é de que a delação possa revelar detalhes sobre políticos, empresários e operadores do mercado financeiro envolvidos no esquema. Há ainda informações de que a defesa busca garantias jurídicas mais amplas, incluindo a possibilidade de homologação do acordo no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro André Mendonça.
Para os investigadores, o principal interesse está em descobrir beneficiários finais, novas ramificações do esquema e detalhes ainda não identificados completamente. Já para a defesa de Vorcaro, a colaboração pode representar redução de penas, definição de valores de ressarcimento e eventual progressão de regime. Questões como o montante exato da devolução de recursos, o tempo de prisão e o alcance das revelações ainda seguem em negociação.
O avanço das tratativas é acompanhado de perto pelo mercado financeiro, pelo Judiciário e pela opinião pública. Especialistas em direito penal econômico avaliam que acordos dessa magnitude costumam exigir tempo e elevado grau de comprovação, especialmente em um caso no qual as autoridades já possuem grande volume de provas. O desfecho da delação de Daniel Vorcaro pode redefinir o cenário das investigações sobre fraudes financeiras no Brasil e impactar diretamente políticos, empresários e instituições financeiras nos próximos anos.
Foto: Reprodução