Itamaraty chama embaixador brasileiro na Argentina para consultas após declarações de Javier Milei durante convenção do PL, ampliando a tensão diplomática entre Brasília e Buenos Aires.
Brasília – O Ministério das Relações Exteriores convocou neste domingo (26) o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas em Brasília, após o presidente argentino Javier Milei fazer duras críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Alexandre de Moraes durante discurso na convenção nacional do PL, em São Paulo.
Segundo o Itamaraty, as declarações de Milei configuram uma “afronta” ao presidente, ao Poder Judiciário e à população brasileira. Bitelli deve chegar à capital federal nesta segunda-feira (27) para reuniões com o chanceler Mauro Vieira. Fontes diplomáticas consultadas pela CNN Brasil classificaram o episódio como a crise mais grave nas relações entre Brasil e Argentina em décadas.
No sábado, ao lado do senador Flávio Bolsonaro, Milei não poupou críticas ao governo brasileiro. Chamou Lula de “presidiário”, referiu-se a Moraes como “lixo careca” e afirmou que a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro revela “vingança” por parte das autoridades. O presidente argentino ainda afirmou que Lula “voltou ao poder radicalizado”, representa um risco ao país e que o Brasil caminha para uma crise de dívida sob sua gestão, desejando que o petista “pague” por isso nas urnas de outubro.
A medida do Itamaraty, tradicionalmente usada como sinal de protesto diplomático, ocorre em meio a uma relação já desgastada entre os dois governos. Analistas observam que o gesto reforça a percepção de que o Palácio do Planalto tem reagido com sensibilidade a críticas externas, especialmente em ano eleitoral.
A convocação de Bitelli acontece poucas semanas após Milei ter sido recebido com honrarias no governo de São Paulo e participado de evento político da oposição, sem agenda oficial com representantes do governo federal. O embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, também pode ser chamado para prestar esclarecimentos.
O episódio expõe mais uma vez as dificuldades do governo Lula em lidar com divergências ideológicas na região, num momento em que a Argentina de Milei avança em uma agenda liberal e busca maior aproximação com governos de direita no continente. A relação bilateral, historicamente estratégica para o Mercosul e o comércio regional, volta a ser tensionada por atritos políticos.
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