Sistema financeiro brasileiro registra US$ 45,8 bilhões em lucros em 2025, enquanto especialistas apontam que juros elevados continuam pressionando o orçamento das famílias endividadas
Brasília. Enquanto o sistema financeiro brasileiro registrou lucros históricos em 2025, com os bancos do país atingindo US$ 45,8 bilhões em ganhos, mais do que a soma de 15 outros países da América Latina, analistas e entidades de defesa do consumidor apontam para um cenário de maior pressão sobre as famílias endividadas.
De acordo com dados da Federação Latino-Americana de Bancos, Felaban, o lucro dos bancos brasileiros cresceu 34% ante 2024. O valor superou o total combinado de nações como Argentina, Peru, Colômbia e outros. Somente Brasil, México e Chile concentraram cerca de 77% das utilidades da região. No Brasil, o retorno sobre o patrimônio, ROE, chegou a 16,7%. É um dos patamares mais elevados desde a pandemia, em um ano marcado por taxas de juros ainda elevadas.
Especialistas do setor financeiro atribuem o bom desempenho ao ambiente de juros altos por boa parte do ano, que favorece as margens das instituições. Os quatro maiores bancos listados na B3 registraram lucros combinados na casa de R$ 107 bilhões. O destaque foi para instituições privadas que apresentaram expansão mesmo em um contexto de seletividade no crédito.
Por outro lado, o endividamento das famílias brasileiras permaneceu em níveis elevados ao longo de 2025. Órgãos de defesa do consumidor destacam o peso dos juros sobre rotativos de cartão de crédito e outras modalidades, que continuam entre as mais caras do mundo. Para muitas famílias, o custo do crédito comprometeu parte significativa da renda, mesmo com programas de renegociação de dívidas implementados pelo governo.
Economistas consultados observam que, embora o setor bancário celebre a rentabilidade, o cenário reforça debates sobre a distribuição dos resultados da economia. O presidente Lula, em discurso anterior, chegou a mencionar os bons resultados do sistema financeiro como exemplo da capacidade do país. Mas críticos argumentam que o ganho concentrado no setor financeiro não se traduziu de forma proporcional em alívio para o endividamento popular.
A taxa Selic, que influenciou diretamente os resultados bancários, foi objeto de ajustes ao longo do ano pelo Banco Central no esforço de controle inflacionário. O governo federal tem defendido que a política econômica buscou equilibrar crescimento e estabilidade, com medidas como o Desenrola e programas de inclusão financeira.
O contraste entre os recordes do setor bancário e as dificuldades de parte da população deve continuar no centro das discussões econômicas, especialmente com o calendário eleitoral de 2026 se aproximando. Entidades representativas dos banqueiros veem o resultado como reflexo de um setor resiliente. Já associações de consumidores pedem maior atenção a spreads e condições de crédito mais acessíveis.
A matéria baseia-se em dados públicos da Felaban e do Banco Central. O desempenho de 2025 reflete dinâmicas macroeconômicas complexas, com impactos diferenciados entre setores.
Foto: PR