Força-tarefa do governo acelerou a análise de benefícios e reduziu a fila de 3 milhões para cerca de 1,28 milhão de pedidos, mas elevou concessões e indeferimentos a níveis inéditos e pressionou os gastos previdenciários
Uma ofensiva do governo federal para acelerar a análise de benefícios previdenciários e limpar os estoques do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) levou os indicadores da autarquia a patamares inéditos, gerando forte preocupação fiscal. Dados oficiais do boletim estatístico da Previdência Social indicam que a estratégia de massificação das decisões resultou em recordes simultâneos de concessões e de indeferimentos de pedidos.
De acordo com o levantamento, o ritmo das análises foi intensificado significativamente nos meses que antecedem as eleições. Entre fevereiro e julho deste ano, o INSS incluiu uma média mensal de 769,9 mil novos beneficiários em sua folha de pagamento — o maior volume da história. O pico da operação ocorreu em março, quando 885,6 mil requerimentos foram aceitos em um único mês.
Em contrapartida, a pressão para destravar os processos gerou uma taxa igualmente inédita de rejeições. A média de indeferimentos saltou para 812,6 mil cortes ou negativas por mês no mesmo período. Embora a força-tarefa tenha reduzido o estoque total de pedidos pendentes de 3 milhões para cerca de 1,28 milhão de requerimentos, analistas apontam que a velocidade dos julgamentos sacrificou a qualidade das auditorias preventivas.
O movimento acendeu o sinal de alerta na equipe econômica devido ao impacto imediato sobre as contas públicas. A projeção oficial de gastos com os pagamentos da seguridade social disparou para R$ 1,1 trilhão ao final deste ano. O montante representa um crescimento real de 12,6% nas despesas em termos anuais, consolidando a maior expansão de gastos previdenciários observada desde 2016 e pressionando o cumprimento das metas fiscais estabelecidas.
A guinada estatística do órgão ganhou tração total após mudanças promovidas pelo Palácio do Planalto no comando da autarquia, que passou a ser liderada pela servidora de carreira Ana Cristina Viana Silveira. A nova gestão assumiu com o objetivo explícito de eliminar as filas de espera, uma das principais vidraças da administração federal junto ao eleitorado de baixa renda e idoso.
Outro lado
Em notas anteriores, o Ministério da Previdência Social e a direção do INSS defenderam a legitimidade e a necessidade da força-tarefa. A administração argumenta que a aceleração das análises decorre da modernização dos sistemas de cruzamento de dados automatizados e da expansão do uso de inteligência artificial na triagem de documentos, visando garantir a dignidade dos segurados que aguardavam há meses por uma resposta do Estado. O governo contesta a tese de que a medida possua motivação eleitoral e reforça que a redução das filas atende a recomendações de órgãos de controle e do Judiciário.
Foto: O Globo