Presidente se reúne com o chefe da AGU, Jorge Messias, para discutir reação à decisão de André Mendonça que afastou Andrei Rodrigues do comando da PF, enquanto o governo prepara recurso no STF.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu nesta terça-feira (8) o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, no Palácio da Alvorada, em meio a mais uma crise envolvendo o governo, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF). O encontro ocorreu poucas horas depois de André Mendonça determinar o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do comando da PF por 90 dias. A movimentação mostra que a decisão do ministro do Supremo deixou de ser apenas uma questão jurídica e passou a representar um problema político de primeira grandeza para o Palácio do Planalto.
A reação de Lula veio justamente por meio da AGU, que prepara recurso contra a decisão de Mendonça sob o argumento de que houve violação da competência privativa da Presidência da República. O governo tenta defender sua prerrogativa sobre a escolha do comando da Polícia Federal, mas o episódio ocorre em um momento particularmente delicado para o presidente, diante das sucessivas crises e escândalos que atingem sua administração e das crescentes disputas institucionais envolvendo a PF e o próprio STF.
A decisão de Mendonça acrescenta ainda mais pressão sobre Lula porque o ministro afirmou ter sido vítima de um suposto “monitoramento sistemático e ilegal” realizado pela Polícia Federal durante mais de 30 dias. Se essas suspeitas forem confirmadas, o episódio poderá ampliar os questionamentos sobre os métodos empregados pela corporação e sobre quem tinha conhecimento das operações. Para o governo, a situação cria o desafio de defender a estrutura administrativa da PF sem transmitir a impressão de que está tentando impedir ou enfraquecer uma investigação sobre possíveis irregularidades.
Enquanto o Planalto prepara sua reação, a Segunda Turma do STF já formou maioria para referendar o afastamento de Andrei Rodrigues. Kassio Nunes Marques e Luiz Fux acompanharam integralmente Mendonça, enquanto Gilmar Mendes pediu vista e Dias Toffoli ainda não apresentou seu voto. O resultado parcial demonstra que a decisão do ministro não está isolada dentro da Corte e aumenta a pressão sobre Lula, que agora enfrenta uma disputa na qual parte dos integrantes do Supremo parece disposta a sustentar a intervenção sobre a cúpula da PF.
Com o afastamento de Andrei, William Marcel Murad, diretor-executivo da Polícia Federal, assumiu temporariamente o comando da corporação. A mudança acontece em um momento em que a PF ocupa posição central em diferentes investigações e crises políticas que alcançam integrantes do governo e autoridades de outras instituições. Para Lula, a perda temporária do controle sobre o comando da PF representa um novo foco de tensão, especialmente porque a corporação é uma das estruturas mais importantes do Estado para investigações de grande repercussão.
O encontro entre Lula e Jorge Messias, portanto, simboliza mais do que a preparação de um recurso judicial: revela o tamanho da crise institucional que chegou ao Palácio da Alvorada. De um lado, o governo tenta preservar a prerrogativa presidencial sobre a Polícia Federal; de outro, Mendonça sustenta que medidas excepcionais são necessárias diante de suspeitas de monitoramento ilegal. Com o STF dividido em torno do caso e novas informações surgindo sobre a atuação da PF, Lula se vê pressionado simultaneamente pelo desgaste político de seu governo e por um Supremo cada vez mais envolvido nas decisões que atingem diretamente a estrutura do Executivo.
Foto: Pedro Ladeira