Decisão determinou a retirada de material de campanha da candidata ao Senado pelo Distrito Federal após ação apresentada por Érika Kokay; defesa de Michelle classificou a medida como “perseguição absurda” e recorreu
Em tom jornalístico, a restrição soa excessiva e reveladora. Proibir a veiculação de imagens de um casal que construiu trajetória pública conjunta beira o ridículo e reforça a percepção de que o sistema eleitoral opera com dois pesos e duas medidas. Em vez de confiar no eleitor para avaliar o material, a Justiça prefere apagar a foto, alimentando a tese de que qualquer associação visual a Bolsonaro precisa ser esterilizada. O resultado é um ambiente de campanha cada vez mais controlado, em que a censura preventiva se disfarça de proteção à equidade e o medo de uma imagem vira, na prática, instrumento de silenciamento.
A decisão revela um padrão preocupante de intervenções judiciais que ultrapassam a fiscalização legítima da propaganda e invadem o terreno da liberdade de expressão política. Ao vetar fotos de Michelle ao lado de Bolsonaro, a Justiça Eleitoral não apenas censura um material de campanha: ela envia um recado claro de que a figura do ex-presidente continua sendo tratada como elemento tóxico, cujo simples registro visual precisa ser neutralizado. Trata-se de uma lógica que transforma a memória política em ameaça e reduz o debate eleitoral a um campo minado de proibições.
Mais grave ainda é o precedente que se consolida. Se uma imagem de casal pode ser considerada irregular, o que impedir que amanhã se proíbam referências a alianças, legados ou até declarações de apoio? A linha entre regular a propaganda e amordaçar a narrativa política fica cada vez mais tênue. No caso de Michelle, a proibição não se justifica por irregularidade formal evidente, mas por uma sensibilidade seletiva que parece temer o capital político associado ao nome Bolsonaro.
A própria reação da campanha classificar a medida como “absurda e descabida” traduz o sentimento de que a Justiça Eleitoral age de forma desproporcional. Não se discute aqui a legitimidade de fiscalizar excessos; discute-se o excesso da fiscalização. Ao atacar uma foto, a decisão transforma um recurso legítimo de campanha em objeto de censura, reforçando a narrativa de perseguição que Michelle e seus aliados já vinham denunciando.
No fim, o episódio serve de termômetro para o clima eleitoral de 2026. Quando a Justiça interdita até a imagem de um casal, o eleitor fica privado de informações e o debate democrático perde oxigênio. A censura, mesmo travestida de proteção à lisura, acaba por revelar o que realmente se teme: não a foto em si, mas o que ela representa.
Texto: @fabiianobraga
Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo