Ministério da Justiça mantém restrição de acesso aos registros de visitantes de Daniel Vorcaro na Superintendência da PF em Brasília, enquanto mensagens do ex-banqueiro e de seu advogado citam Lula, Janja e festas na Grécia
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal revelaram uma conversa entre o ex-banqueiro e o advogado Walfrido Warde, então integrante de sua defesa, na qual aparecem referências ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à primeira-dama Janja da Silva e a uma festa. O diálogo ocorreu em 4 de dezembro de 2024, data em que Vorcaro participou de uma reunião no Palácio do Planalto.
Na conversa, Warde inicialmente parabeniza Vorcaro pelo encontro e afirma ter recebido informações de que a reunião havia transcorrido bem. Pouco depois, o diálogo passa a tratar de festas e do estilo de vida atribuído ao empresário.
Vorcaro então relata que, durante a conversa, teria surgido uma referência a uma festa na Grécia. Na sequência, o advogado responde em tom de brincadeira: “Ele quer participar hahahahaha. Sem a Janja. Cara vamos fazer uma grande farra”. Em outra mensagem da sequência, Warde acrescenta: “Sem ele claro”.
As mensagens mostram o que Vorcaro e seu advogado disseram entre si, mas não comprovam, isoladamente, que Lula tenha efetivamente manifestado interesse em participar de uma festa. Também não há, nesse diálogo, uma declaração direta do presidente, tornando necessário distinguir o conteúdo das mensagens daquilo que pode ser atribuído como fato ao chefe do Executivo.
A divulgação das conversas ampliou a repercussão política em torno das relações mantidas por Vorcaro antes do aprofundamento das investigações sobre o Banco Master. Os contatos do empresário com autoridades, advogados e outras figuras públicas vêm sendo examinados a partir do material obtido pela Polícia Federal.
O governo federal contestou interpretações sobre as mensagens. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que Lula não recebeu presentes de Vorcaro nem tratou de assuntos privados dessa natureza e sustenta que relatos feitos por intermediários podem representar jactância ou tentativa de aparentar uma proximidade maior com o presidente.
Paralelamente, outro ponto envolvendo Vorcaro passou a provocar questionamentos sobre transparência. A Polícia Federal restringiu por até 100 anos o acesso aos registros de pessoas que visitaram o ex-banqueiro durante o período em que ele permaneceu custodiado na Superintendência da PF em Brasília.
A restrição foi mantida pelo Ministério da Justiça depois de um recurso apresentado com base na Lei de Acesso à Informação. A justificativa oficial foi de que os registros contêm informações pessoais relacionadas à intimidade e à vida privada de Vorcaro e também poderiam revelar vínculos familiares, sociais ou profissionais.
A decisão sobre o sigilo recebeu críticas de parlamentares e especialistas ouvidos pela imprensa, que questionaram se o interesse público relacionado ao caso justificaria a divulgação dos registros. A Câmara dos Deputados chegou a encaminhar ao Ministério da Justiça um requerimento de informações especificamente sobre o sigilo imposto à relação de visitantes.
Com a divulgação de novas mensagens, tanto os contatos de Vorcaro com figuras públicas quanto o acesso aos registros de suas visitas permanecem no centro da repercussão política do caso. As conversas obtidas pela PF fornecem elementos para a investigação e para o debate público, mas as referências feitas por terceiros a Lula, Janja ou outras autoridades precisam ser analisadas em seu contexto e não constituem, por si mesmas, comprovação das afirmações reproduzidas pelos interlocutores.
Foto: Poder360