GILMAR MENDES, O GUARDIÃO SELETIVO, ATACA MENDONÇA POR “VIÉS ELEITORAL” E APONTA CONDUTA POLÍTICA NO STF

REDAÇÃO

Ministro acusa André Mendonça de conduzir o caso Banco Master com “inequívoco viés político-eleitoral”, questiona o momento de produção e divulgação de relatório da PF e cobra providências sobre procedimentos adotados no STF

Gilmar Mendes, o decano que transforma cada divergência em espetáculo, voltou a ocupar o centro do debate ao liberar nesta segunda-feira um documento em que acusa André Mendonça de conduzir o caso Master com “inequívoco viés político-eleitoral”. Segundo o ministro, o colega teria aguardado pacientemente a chegada do período eleitoral para determinar a produção de um relatório da Polícia Federal e divulgá-lo de forma a constranger os demais magistrados especialmente Alexandre de Moraes. Uma denúncia gravíssima, é claro, e que chega com a mesma pontualidade teatral que Gilmar costuma reservar para seus momentos de indignação pública.
No texto, Mendes afirma que as mensagens envolvendo Moraes já circulavam desde março e que um relatório preliminar chegou às mãos de Mendonça em abril. Ainda assim, o relator teria esperado o momento mais delicado do calendário político para dar andamento à diligência. Para o decano, a escolha da data inclusive a proximidade com o 7 de Setembro não foi coincidência, mas estratégia deliberada. É quase comovente ver Gilmar tão atento ao “timing” alheio, como se o próprio nunca tivesse calibrado suas declarações conforme a conveniência do momento.
O mesmo Gilmar que, em sessão recente, já havia chamado Mendonça de “pixuleco” e “boneco eleitoral” agora eleva o tom e pede até a redistribuição de processos. A acusação de que o colega buscou “limitar a reação” dos pares ao divulgar o material antes do plenário soa especialmente irônica vinda de quem há meses transforma cada crítica em nota pública ou entrevista inflamada. Afinal, quando se trata de apontar o dedo, o decano raramente hesita e raramente se pergunta se o espelho também reflete alguma coisa.
Enquanto mira Mendonça, Gilmar não deixa de lado a clássica cobrança a Edson Fachin, acusando-o de ter assumido a relatoria de um dos procedimentos sem o devido sorteio entre os ministros. Mais uma vez, o decano se apresenta como guardião das regras regimentais, uma postura que contrastaria de forma interessante com suas próprias manobras processuais ao longo dos anos. Mas o verdadeiro foco do documento, e o que mais parece interessar a Gilmar, continua sendo o embate com Mendonça.
A rivalidade entre os dois já vinha escalando desde junho, quando Mendes classificou de “erro crasso” a participação de Mendonça em tratativas de delação no caso Master. De lá para cá, o decano parece ter encontrado no colega o rival ideal: alguém cuja condução de investigações incomoda o suficiente para justificar rodadas sucessivas de acusações públicas. E, como de costume, a narrativa de Gilmar se apresenta sempre como defesa da institucionalidade nunca como movimento de poder dentro da Corte.
No fim, o documento liberado nesta segunda-feira reforça o padrão: Gilmar Mendes denuncia, aponta viés, cobra pureza processual e, de quebra, garante mais um capítulo de protagonismo. Resta saber se a preocupação com o “viés eleitoral” de Mendonça é tão genuína quanto a habilidade do decano em transformar cada crise interna em oportunidade de ocupar o centro do palco.
Texto: @fabiianobraga
Vídeo: Reprodução