Presidente recebeu imagem de Nossa Senhora Aparecida durante caminhada de campanha em Fortaleza, em meio à repercussão de uma falsa narrativa sobre Flávio Bolsonaro e à crescente presença da religião na disputa eleitoral
A reta final da campanha presidencial ganhou mais um capítulo envolvendo religião nesta terça-feira (29), durante a passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Centro de Fortaleza. Em caminhada ao lado do governador Elmano de Freitas e de outros aliados políticos, Lula recebeu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, em um momento no qual a santa se tornou um dos principais símbolos da disputa de narrativas entre as campanhas.
O episódio ocorreu durante uma agenda eleitoral que reuniu apoiadores e lideranças políticas no Centro da capital cearense. A presença de Lula acontece a apenas cinco dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e integra a mobilização da campanha pela reeleição de Elmano no Ceará.
A aparição da imagem religiosa chama atenção principalmente pelo contexto da campanha presidencial. Nos últimos dias, circulou nas redes sociais a informação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Não existe proposta do candidato nesse sentido, e diferentes checagens classificaram a narrativa como falsa.
Nesse cenário, críticos de Lula acusam o presidente e seus aliados de fazer politicagem com Nossa Senhora Aparecida, levando um símbolo sagrado para o centro da batalha eleitoral justamente quando a religião ganhou enorme repercussão na disputa presidencial. O recebimento da imagem durante um ato de campanha tende, portanto, a ser interpretado de maneiras distintas por apoiadores e adversários.
A polêmica ganhou força porque a notícia falsa envolvendo Flávio Bolsonaro teve grande circulação nas redes sociais. Levantamento divulgado pela Folha apontou que parte relevante das mensagens monitoradas tratava o boato como verdadeiro e que a narrativa provocou indignação entre católicos e manifestações contrárias ao candidato.
Flávio Bolsonaro reagiu publicamente, negou qualquer intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida e afirmou respeitar diferentes religiões. O candidato também declarou que a fake news provocou forte impacto sobre sua campanha e comparou o episódio, em termos políticos, a uma “facada” contra sua candidatura.
O tema religioso também passou a ser explorado por adversários de Flávio durante a campanha. Reportagens registraram que aliados de Lula, entre eles a primeira-dama Janja e o vice-presidente Geraldo Alckmin, fizeram referências à controvérsia, ampliando a presença de Nossa Senhora Aparecida no debate eleitoral.
A própria CNBB precisou entrar publicamente na discussão depois de ser acusada por Flávio de ter integrantes envolvidos na propagação da história. A entidade negou ter produzido, autorizado ou participado da divulgação de informações falsas e afirmou repudiar a utilização de desinformação independentemente de quem seja beneficiado ou prejudicado por ela.
É nesse ambiente de forte tensão entre política e religião que Lula recebe a imagem de Nossa Senhora Aparecida em Fortaleza. Para seus críticos, o episódio reforça a acusação de politicagem com a fé; para apoiadores, receber uma imagem religiosa durante uma caminhada pode ser interpretado simplesmente como um gesto de respeito à manifestação de um eleitor. A intenção política específica do gesto não pode ser estabelecida apenas pelo registro do episódio.
Com poucos dias restantes até a votação, Nossa Senhora Aparecida acabou inserida de maneira inesperada no centro da campanha presidencial. Entre fake news, acusações, decisões judiciais e manifestações públicas dos candidatos, a religião tornou-se mais um campo de disputa eleitoral, enquanto Lula segue sua agenda pelo Ceará e Flávio Bolsonaro tenta conter os efeitos da informação falsa que associou seu nome à retirada do título de Padroeira do Brasil.
Foto: Divulgação / O POVO
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