Relatório da PF aponta tentativa de interferência política em ação policial no Ceará

REDAÇÃO

Áudios, mensagens e fotos indicam uso de influência para beneficiar investigados durante período eleitoral

O relatório da Polícia Federal, expõe um episódio que levanta graves questionamentos sobre o uso indevido de influência política e o risco de aparelhamento institucional em benefício de grupos sob investigação por crimes eleitorais e organização criminosa.
No contexto de uma abordagem policial a Cleidiane, irmã de Carlos Alberto Queiroz Pereira, conhecido como Bebeto (ou Bebeto do Choró/Queiroz), apontado pela PF como figura central em esquemas de fraudes em licitações, desvio de emendas e financiamento irregular de campanhas, Bebeto demonstra preocupação imediata com a possibilidade de rastreamento veicular e troca frequente de automóveis. A conversa interceptada revela um padrão de cautela típico de quem busca evitar fiscalização, reforçado pela nota policial que conecta o incidente à Informação Policial n. 05/2025.
O ponto mais sensível surge na transcrição de áudio: “Obrigado meu amigo Tibério, pelo apoio aí ontem. Falei com o Evandro Leitão já, amanhã nós vamos almoçar juntos. Obrigado por tudo meus amigos.” Essa mensagem, datada do período eleitoral de 2024, registra Bebeto agradecendo a mediação de Tibério César Burlamaqui (ex-chefe de gabinete da Assembleia Legislativa) e confirmando contato direto com Evandro Leitão à época presidente da Assembleia e hoje prefeito de Fortaleza (eleito em 2024 pelo PT).
Segundo a PF, Bebeto acionou Leitão para interceder junto ao comandante do 4º BPM (Coronel Acácio), pedindo para “abrir as portas” e suavizar a atuação da Polícia Militar em Canindé, evitando que “acoxe” (pressione) familiares e aliados. A frase explícita “não vou ficar aqui em Canindé sendo perseguido pela polícia, minha irmã perseguida pela polícia e todos os meus amigos” reforça o suposto envolvimento de Cleidiane nas ações investigadas e revela a intenção de criar uma zona de imunidade tática durante o pleito.
O documento anexa imagens do celular de Carlos Alberto que comprovam proximidade recorrente: fotos de Bebeto ao lado de Evandro Leitão, do deputado federal Júnior Mano (PSB, também investigado em operações como a Underhand por desvios de emendas) e de Cleidiane, em contextos informais, reservados e institucionais. 
A PF classifica o conjunto como evidência de interlocução habitual, não pontual, usada para instrumentalizar altas lideranças legislativas em favor de interesses privados.

Aspectos críticos que emergem dos autos:

  1. Risco de interferência indevida no aparato de segurança: Solicitar que um comandante militar “suavize” operações em região específica, em período eleitoral, configura potencial abuso de influência e atentado à imparcialidade das forças de segurança especialmente quando o solicitante está ligado a investigações criminais.
  2. Padrão de aparelhamento institucional: A articulação via cúpula da Assembleia Legislativa para neutralizar fiscalização policial ecoa o que a PF descreve como “aparelhamento” mapeado em outros núcleos da investigação, ligado a Bebeto e operadores próximos.
  3. Contexto eleitoral sensível: As ações ocorreram em setembro de 2024, auge da campanha municipal. Evandro Leitão disputou (e venceu) a Prefeitura de Fortaleza. Qualquer percepção de que aliados usaram contatos de alto escalão para blindar operações em cidades do interior levanta dúvidas sobre a lisura do processo democrático e o uso de redes de poder para proteção pessoal/política.
Embora as investigações sigam em curso e as partes tenham direito à ampla defesa, os elementos colhidos pela PF áudios, mensagens, contatos salvos como “Evandro Leitão” e fotos expõem a fragilidade das instituições quando redes pessoais sobrepõem-se ao interesse público. Em um Estado onde esquemas de emendas e caixa dois já levaram a prisões e foragidos (como o próprio Bebeto, alvo de mandados posteriores), episódios como esse reforçam a necessidade de maior transparência e accountability na relação entre poder político e forças de segurança. A sociedade cearense merece respostas claras: almoços e mediações resolvem pressões policiais, ou apenas revelam como o sistema pode ser manipulado em benefício de poucos?