Agenda apreendida pela PF liga filho de prefeito de Fortaleza a investigação sobre desvio de emendas

REDAÇÃO

Documento encontrado em operação aponta possíveis conexões com esquema de fraudes e financiamento irregular

 

Uma agenda apreendida pela Polícia Federal durante a Operação Underhand, deflagrada em 8 de julho de 2025, expõe um elo inquietante entre Eduardo Leitão, filho do prefeito de Fortaleza Evandro Leitão (PT), e o cerne de um esquema investigado de desvios de emendas parlamentares, fraudes em licitações e financiamento ilícito de campanhas eleitorais no Ceará.
A ação policial, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, cumpriu 15 mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao deputado federal Júnior Mano (PSB-CE), incluindo seu apartamento funcional em Brasília. Foi exatamente lá, na madrugada da operação, que os agentes encontraram Eduardo Leitão, empresário atuante no ramo de eventos artísticos e sem qualquer cargo público na prefeitura, portando uma mochila com a agenda em questão.
A agenda continha anotações explícitas como “Urgência Pagamentos” e “Novos Contratos”, acompanhadas de listas de nomes de políticos cearenses entre deputados federais, estaduais, ex-parlamentares e vereadores, valores associados e registros que a Polícia Federal interpreta como planejamento organizado de repasses suspeitos. De acordo com relatório obtido com exclusividade pelo Portal iG em agosto de 2025, esses apontamentos sugerem uma estrutura de movimentações financeiras irregulares, possivelmente ligada ao esquema maior apurado na operação: o direcionamento de emendas federais a municípios aliados em troca de “pedágios” (propinas estimadas entre 12% e 15%), com recursos desviados para financiar campanhas, inclusive as eleições municipais de 2024.
A PF destaca que Júnior Mano atuava como articulador central, pressionando por liberações via instituições financeiras e coordenando com empresas de fachada para lavar dinheiro e fraudar contratos públicos.

A presença de Eduardo no apartamento foi justificada pelo próprio Júnior Mano como resultado de uma amizade pessoal e um convite casual, sem implicar participação direta no inquérito. A assessoria da Prefeitura de Fortaleza reforçou a mesma linha de defesa, afirmando que Eduardo não possui vínculo oficial com a administração municipal e que sua menção no caso se limita à apreensão da agenda, sem que ele seja formalmente investigado até o momento. Evandro Leitão, por sua vez, evitou pronunciamentos diretos sobre a operação contra Mano, limitando-se a alegar desconhecimento aprofundado dos detalhes e prudência em razão do sigilo do processo.
No entanto, as evidências materiais acumuladas de áudios interceptados, transações financeiras rastreadas, depoimentos de colaboradores e agora essa agenda alimentam um debate inescapável na sociedade cearense. Em um estado historicamente marcado por práticas clientelistas, redes familiares de poder e opacidade no uso de emendas parlamentares (incluindo mecanismos como as transferências Pix), como justificar a circulação de um documento tão comprometedor nas mãos do filho do prefeito, justamente dentro do reduto de um dos principais alvos da investigação?
O episódio não é isolado: integra uma série de operações da PF (Vis Occulta, Mercato Clausu, Underhand e desdobramentos como Underlayer) que revelam um padrão de captura de recursos públicos para perpetuar influência política, afetando dezenas de municípios pobres do interior e desviando verbas destinadas à saúde, infraestrutura e desenvolvimento.
O inquérito segue tramitando sob sigilo parcial no STF, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), e o bloqueio judicial de R$ 54,6 milhões em contas investigadas demonstra a dimensão financeira do caso. Enquanto as defesas envolvidas insistem na ausência de irregularidades e na natureza pessoal da relação entre Eduardo e Mano, o silêncio oficial prolongado contrasta com a gravidade das suspeitas.
A sociedade cobra transparência plena, respostas concretas e accountability rigorosa: quem autorizou ou facilitou esses contatos? Quais eram os reais propósitos das anotações na agenda? Sem avanços concretos na fiscalização de emendas e no combate ao clientelismo político, episódios como esse continuarão a minar a confiança nas instituições, perpetuar desigualdades regionais e roubar recursos essenciais daqueles que mais dependem do poder público.
O futuro do Ceará exige mais do que justificativas, exige verdade e reformas urgentes!