Luiz Inácio Lula da Silva articula renegociação com descontos elevados enquanto medida pode impactar inflação e decisões do Banco Central
Brasília:
Em mais uma tentativa desesperada de melhorar a popularidade em ano eleitoral, o governo Lula prepara um novo programa de renegociação de dívidas para famílias superendividadas, com descontos de até 80% e possíveis garantias públicas aos bancos. O que parece um alívio para o bolso dos brasileiros pode, na prática, transformar-se em um remédio amargo: ao estimular ainda mais o crédito e a demanda, a iniciativa deve obrigar o Banco Central a manter a Selic elevada por mais tempo, prolongando o sofrimento de quem já paga juros abusivos no rotativo do cartão e em outras linhas.
Segundo discussões em andamento entre o Ministério da Fazenda e a Febraban, o programa — mais simples que o Desenrola Brasil — visa consolidar dívidas caras, especialmente de cartão de crédito, migrando-as para condições mais “acessíveis”. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a defender descontos amplos e até o uso de recursos públicos para incentivar os bancos a perdoarem parte da dívida. A ideia é clara: injetar liquidez, reduzir a inadimplência recorde e dar um fôlego aparente à economia.
No entanto, analistas alertam que essa expansão artificial de crédito funciona como gasolina em um motor superaquecido. Com a inflação ainda pressionada e o consumo das famílias já comprometido por dívidas altas, qualquer estímulo adicional tende a aquecer a demanda agregada sem aumentar a oferta de bens e serviços. O resultado previsível? Mais pressão sobre os preços, forçando o Banco Central a adiar ou reduzir o ritmo de cortes na taxa básica de juros.
O BC, que iniciou há pouco um tímido ciclo de redução da Selic (de 15% para 14,75%), já demonstra preocupação com medidas populistas que podem desancorar as expectativas inflacionárias. Técnicos da autoridade monetária veem com ceticismo iniciativas que facilitam o endividamento sem atacar as causas estruturais — como o descontrole dos gastos públicos e a falta de reformas que realmente barateiem o crédito de forma sustentável.
Especialistas consultados por veículos como o Valor Econômico são diretos: o “remédio” em estudo pelo Planalto é um tiro no pé. Em vez de permitir uma queda mais acelerada dos juros — o que aliviaria de verdade o custo do crédito para empresas e famílias —, o pacote pode travar o processo, mantendo o aperto monetário por meses a mais. Enquanto isso, o brasileiro comum continua refém de taxas escorchantes no rotativo do cartão (acima de 14% ao mês em alguns casos) e sente o peso de uma economia que cresce pouco e inflaciona muito.
Críticos apontam ainda o timing político da medida. Com a popularidade do governo em cheque e as eleições de 2026 se aproximando, o Planalto aposta em gestos eleitoreiros que mascaram problemas profundos: endividamento recorde das famílias, contas públicas sob tensão e um Banco Central obrigado a fazer o trabalho sujo de conter os excessos fiscais e creditícios do Executivo.
Em resumo, o que o governo vende como solução generosa para o superendividamento pode sair caro para todos. Famílias endividadas ganham um alívio temporário, mas pagam a conta depois com juros mais altos por mais tempo, inflação persistente e crescimento anêmico. Mais uma vez, o populismo econômico de curto prazo ameaça sacrificar a estabilidade de longo prazo — e quem paga o pato, como sempre, é o contribuinte e o consumidor brasileiro.
Foto: PR