ALCKMIN CHAMA REDUÇÃO DE JORNADA DE “TENDÊNCIA MUNDIAL” MAS IGNORA O RISCO DE MAIS DESEMPREGO E INFLAÇÃO

REDAÇÃO

Alckmin chama redução de jornada de “tendência mundial”, mas ignora riscos reais para a economia brasileira

Em mais uma declaração alinhada ao discurso governista, o vice-presidente Geraldo Alckmin, exercendo a Presidência da República interinamente, afirmou que a redução da jornada de trabalho — incluindo o fim da escala 6×1 — é uma “tendência mundial” que merece ser discutida no Congresso Nacional. A fala ocorreu durante visita a concessionárias em Valparaíso de Goiás (GO), no mesmo momento em que o governo Lula acelera propostas para cortar a carga horária semanal sem redução de salário.
Alckmin repetiu o mantra já usado em eventos com sindicalistas: a tecnologia permite “fazer mais com menos gente”, tornando natural a diminuição das horas trabalhadas. “Essa é uma tendência mundial. Se deve discutir o tema para ver a maneira se isso pode ser implantado direto, se deve ter um escalonamento em razão dos tipos de atividade”, disse o vice.
O problema é que o discurso soa mais como propaganda eleitoral do que análise econômica séria. Com eleições se aproximando e pesquisas mostrando que cerca de 57% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, o governo transforma uma pauta trabalhista em estratégia de reeleição. Enquanto Lula viaja pela Europa, Alckmin vende a ideia de que trabalhar menos é progresso inevitável — sem explicar quem pagará a conta.
O que a matéria oficial omite
A atual legislação brasileira prevê jornada de até 44 horas semanais, com a escala 6×1 (seis dias de trabalho e um de folga) sendo comum em setores como comércio, serviços, segurança e saúde. As propostas em tramitação vão além: PECs defendem redução para 36 horas semanais ou adoção do modelo 4×3, enquanto o PL do governo sugere 40 horas e escala 5×2.Estudos patrocinados por entidades ligadas ao governo ou ao movimento sindical, como o da Unicamp, projetam até 4,5 milhões de novos empregos e ganho de produtividade. Mas análises mais independentes pintam um quadro bem diferente: Estudo da CNI estima aumento de até R$ 267 bilhões por ano nos custos com mão de obra formal — o equivalente a 7% a mais na folha de pagamento das empresas. Estados como São Paulo seriam os mais prejudicados.
Projeções da FGV indicam perda de renda na economia entre 2,1% e 8,1%, dependendo do corte de jornada, mesmo considerando algum ganho de produtividade.
Setores intensivos em mão de obra (comércio, serviços e pequenas empresas) sofreriam mais, com risco de inflação nos preços ao consumidor (estimada em até 6,2% em alguns cálculos) e pressão sobre o desemprego.
Empresários, como o presidente da Fiesp Paulo Skaf, já pediram para adiar o debate para depois das eleições, justamente para evitar que “motivações eleitorais” se confundam com o interesse do país. O relator da matéria na Câmara, deputado Paulo Azi (União-BA), propôs uma transição de até 10 anos — e foi imediatamente criticado pelo ministro Guilherme Boulos, que quer aceleração. A “tendência mundial” seletiva Alckmin e o governo adoram citar exemplos como Islândia, Reino Unido e França, onde testes de semana de 4 dias ou jornadas menores mostraram manutenção ou leve ganho de produtividade em empresas específicas, com melhora no bem-estar dos funcionários. O que eles não destacam é o contexto:Esses países têm economias muito mais produtivas, com alta automação, mão de obra qualificada e forte rede de proteção social.
Mesmo lá, nem todos os setores se adaptam facilmente. Na França, a redução histórica da jornada gerou aumento do custo do trabalho por hora e, em alguns casos, queda no emprego.
Países da América Latina que tentaram reduções semelhantes (como Colômbia) registraram recuo na produtividade por trabalhador.
O Brasil já tem jornada anual relativamente alta em comparação a nações ricas, mas baixa produtividade por hora trabalhada. Reduzir horas sem resolver o problema estrutural de eficiência pode simplesmente significar menos produção e mais custo.
Além disso, a tecnologia que Alckmin tanto elogia também destrói postos de trabalho em ritmo acelerado. IA, automação e robótica substituem funções repetitivas. Prometer “mais tempo livre” enquanto a economia patina soa bonito em palanque, mas na prática pode significar menos vagas, salários pressionados ou aumento da informalidade.
Populismo disfarçado de progresso
O governo insiste em dizer que a redução virá “sem corte salarial”, como se dinheiro brotasse do nada. Na realidade, o custo extra recairá sobre as empresas, que repassarão aos preços, ou sobre o contribuinte, via subsídios, desonerações ou mais dívida pública. Pequenos negócios, que geram a maior parte dos empregos no Brasil, serão os mais castigados — exatamente aqueles sem margem para absorver aumentos de custo.
Enquanto isso, o Congresso corre contra o tempo com regime de urgência, como se uma mudança estrutural dessa magnitude pudesse ser feita às pressas para render votos em outubro.
Redução inteligente de jornada, com ganhos reais de produtividade e negociação direta entre empresas e trabalhadores, pode fazer sentido em alguns setores maduros. Mas impor uma redução generalizada via decreto ou PEC, ignorando as especificidades da economia brasileira, cheira mais a marketing político do que a política pública responsável.
Alckmin tem razão em uma coisa: o mundo discute redução de jornada. O problema é que o Brasil não é “o mundo”. Aqui, antes de sonhar com semana de 4 dias, seria prudente resolver baixa produtividade, carga tributária elevada, burocracia sufocante e educação deficiente. Do contrário, a “tendência mundial” pode virar tendência nacional de estagnação e desemprego disfarçado.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Ricardo Stuckert