DE “JOÃO DE DEUS” A “JOÃO DO DIABO”: JUSTIÇA CONDENA CRIMINOSO BUSADOR SEXUAL A PAGAR R$ 20 MILHÕES

REDAÇÃO

Tribunal de Justiça de Goiás condena João Teixeira de Faria e o Centro Espírita Dom Inácio de Loyola por dano moral coletivo relacionado aos abusos sexuais cometidos contra mulheres em Abadiânia

O Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) condenou João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, e o Centro Espírita Dom Inácio de Loyola ao pagamento de R$ 20 milhões por dano moral coletivo em razão dos abusos sexuais cometidos contra mulheres na entidade em Abadiânia (GO). A decisão determina que o dinheiro seja destinado a fundos de proteção às mulheres e também prevê reparação individual para vítimas que comprovarem os danos. Diante da gravidade dos crimes, o apelido que ganhou fama parece hoje uma ironia de mau gosto: de “João de Deus”, o criminoso poderia ser lembrado como “João do Diabo”.
O caso expõe a dimensão perversa dos crimes atribuídos ao ex-líder espiritual, que, segundo as condenações já impostas pela Justiça, teria utilizado sua posição de autoridade e a confiança de pessoas vulneráveis para cometer abusos. A fé, que deveria representar acolhimento, esperança e proteção, acabou sendo transformada em instrumento de manipulação. Não havia milagre naquela história, mas vítimas, sofrimento e uma máscara de santidade que acabou despencando.
A decisão judicial também manteve o bloqueio da fazenda do réu, avaliada em aproximadamente R$ 41 milhões, para garantir o cumprimento das obrigações determinadas pela Justiça. O patrimônio, nesse contexto, deixa de ser apenas um símbolo de riqueza e passa a representar uma das formas possíveis de assegurar alguma reparação às vítimas que tiveram suas vidas profundamente afetadas pelos crimes.
João de Deus cumpre prisão domiciliar e acumula penas que ultrapassam 458 anos de reclusão. É um número que, por si só, dimensiona a gravidade do histórico criminal que veio à tona. O homem que durante anos foi tratado por milhares de pessoas como uma espécie de autoridade espiritual terminou condenado por crimes que destruíram a confiança de quem buscava ajuda e proteção.
A nova condenação de R$ 20 milhões não é capaz de apagar o trauma das vítimas, nem devolver os anos de sofrimento provocados pelos abusos. Dinheiro algum consegue fazer isso. Mas a decisão representa uma resposta institucional importante diante de crimes que foram cometidos sob uma fachada de espiritualidade. Quando a Justiça determina reparação, também reafirma que nenhuma reputação, fama ou suposta autoridade religiosa está acima da lei.
No fim das contas, a história de João de Deus é um dos exemplos mais chocantes de como uma imagem construída em torno da fé pode ser utilizada para esconder uma realidade completamente diferente. O título de “homem de Deus” não resistiu aos fatos revelados e às condenações judiciais. Se existe alguma ironia possível nessa história, é que o homem chamado de “João de Deus” acabou deixando para trás não um legado de milagres, mas um rastro de crimes, vítimas e condenações.
Texto: @fabiianobraga
Vídeo: Reprodução