Alcolumbre e o telefonema constrangedor: quando o presidente do Senado se ajoelha perante o STF
Em mais um capítulo da crônica da submissão institucional brasileira, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado Federal, protagonizou uma cena lamentável na última terça-feira. Em vez de defender a independência do Poder Legislativo, Alcolumbre pegou o telefone e ligou para ministros do Supremo Tribunal Federal para “acalmar os ânimos” após o relatório da CPI do Crime Organizado, relatado pelo senador Alessandro Vieira, ter ousado propor o indiciamento de membros da própria Corte — entre eles Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Paulo Gonet.
O que chama atenção não é apenas a ligação em si — afinal, diálogo entre Poderes pode ser salutar. O problema é o conteúdo e o espírito da conversa. Segundo relatos publicados pela Veja, Alcolumbre teria dito aos ministros que não tinha como controlar os “loucos de hospício” que atuavam na CPI. A expressão, grosseira e desqualificadora, revela muito mais do que uma simples tentativa de apaziguamento: expõe uma visão desprezível dos parlamentares que, no exercício legítimo de suas funções, ousaram investigar possíveis irregularidades envolvendo figuras do Judiciário.
Chamar senadores de “loucos de hospício” enquanto tenta agradar o STF é, no mínimo, uma demonstração patética de subserviência. Alcolumbre não agiu como presidente de uma Casa independente, mas como um intermediário preocupado em evitar o descontentamento dos togados. Em vez de reforçar que CPIs são instrumentos constitucionais de fiscalização e que o Legislativo não precisa de autorização prévia do Supremo para exercer seu papel, o senador preferiu correr para Brasília com o rabo entre as pernas, pedindo desculpas em nome de “loucos” que, convenhamos, estavam fazendo exatamente o que muitos brasileiros esperam do Congresso: investigar sem medo.
O relatório de Alessandro Vieira foi rejeitado pelos próprios senadores, o que já demonstra que o sistema de freios e contrapesos funcionou internamente. No entanto, a reação imediata de parte do STF — com ameaças veladas de retaliação e pedido de investigação contra o relator na PGR — expôs o quanto certos ministros se sentem acima de qualquer escrutínio. E Alcolumbre, em vez de se posicionar como baluarte da separação de Poderes, reforçou essa percepção ao tratar o episódio como uma “crise” que precisava ser contida a qualquer custo.
Esse comportamento não é novidade na trajetória de Alcolumbre. Sua presidência no Senado tem sido marcada por uma gestão pragmática, mas frequentemente excessivamente cautelosa ou acomodada diante das investidas do Judiciário. Enquanto o STF acumula decisões que invadem competências legislativas e executivas, o presidente da Casa alta parece mais preocupado em manter a “harmonia” do que em afirmar a soberania do voto popular que o elegeu e aos seus pares.
A frase “não tenho como controlar os loucos de hospício” não ofende apenas os senadores da CPI. Ela ofende a própria democracia representativa. Sugere que investigar ministros do Supremo seria ato de insanidade, quando, na verdade, a impunidade e a blindagem corporativa é que representam o verdadeiro desequilíbrio institucional.
Davi Alcolumbre poderia ter usado o episódio para reforçar que o Senado não aceita tutelas. Poderia ter lembrado que o Legislativo tem o dever de fiscalizar todos os Poderes, inclusive o Judiciário. Em vez disso, escolheu o caminho mais fácil: ligar para os ministros e desqualificar quem ousou cutucar o ninho de vespas.
Enquanto o Brasil assiste a esse teatro de aparente “harmonia”, fica a pergunta incômoda: quem realmente controla quem? E até quando o Legislativo brasileiro vai continuar se comportando como um poder secundário, pedindo licença ao Supremo antes de exercer suas prerrogativas constitucionais?A subserviência disfarçada de “responsabilidade institucional” só aprofunda a crise de credibilidade das instituições. E Alcolumbre, com esse telefonema, deu mais um passo nessa direção lamentável.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Carlos Moura – Agência Senado