Contrato milionário da embratur com empresa ligada a vorcaro levanta dúvidas sobre transparência na COP30
Em meio à polêmica da COP30, realizada em novembro de 2025 em Belém, o governo Lula gastou ao menos 350 milhões de reais para alugar navios de cruzeiro de luxo que serviram de hospedagem flutuante para chefes de Estado, delegações e equipes da ONU. A operação, justificada pelo déficit de leitos na capital paraense, revelou-se mais um capítulo de questionáveis escolhas administrativas e proximidades incômodas.
A contratação não foi feita diretamente pelo governo. A Embratur, agência federal de turismo, intermediou o negócio por meio da Qualitours Agência de Viagens e Turismo Ltda., empresa pertencente ao empresário Marcelo Cohen. Cohen, por sua vez, é sócio de Daniel Vorcaro no luxuoso hotel Botanique, em Campos do Jordão. Vorcaro é o ex-controlador do Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em 2025 após graves suspeitas de fraudes, gestão temerária e um rombo bilionário que levou à intervenção da Polícia Federal e prisões relacionadas ao banqueiro.
A ligação entre a Qualitours e o universo de Vorcaro não para aí. A agência faz parte da holding BeFly, criada com apoio de fundos ligados ao próprio Banco Master. Enquanto o governo tenta minimizar a relação, afirmando que seguiu chamamento público e obteve aprovação do Tribunal de Contas da União, a escolha de uma empresa tão próxima de um nome envolvido em escândalos financeiros levanta sérias dúvidas sobre transparência e possível conflito de interesses.
O valor total do contrato, segundo documentos da Casa Civil, chegou a 350,2 milhões de reais, incluindo custos com os navios MSC Seaview e Costa Diadema, que ofereceram milhares de cabines com diárias que podiam ultrapassar dezenas de milhares de reais. Parte significativa desse montante representava uma garantia pública, ou seja, dinheiro dos contribuintes que poderia ser perdido caso a ocupação não fosse total. Enquanto isso, o Pará enfrentava críticas por infraestrutura precária, praias abandonadas e falta de investimentos básicos para a população local.
A operação expõe, mais uma vez, a gestão do governo Lula em eventos de grande visibilidade internacional: gastos milionários com soluções de luxo, intermediadas por circuitos empresariais controversos, em um contexto de promessas de austeridade e combate às mudanças climáticas. Para muitos, a COP30 em Belém serviu menos para avançar na agenda ambiental e mais para revelar os velhos hábitos de uma administração que parece não medir esforços – nem custos – quando se trata de hospedar o mundo com o dinheiro público, mesmo que isso signifique navegar em águas turvas de relações societárias problemáticas.
Fotos: PR / Divulgação