Decisão de Flávio Dino determinou que a PF investigue oito episódios envolvendo destruição de imagens católicas e símbolos de religiões de matriz africana em sete estados, enquanto lideranças evangélicas questionam a ausência de casos envolvendo templos protestantes no escopo da apuração
A decisão do ministro Flávio Dino de ordenar uma investigação da Polícia Federal focada exclusivamente em ataques a imagens católicas e terreiros gerou forte reação e cobranças por parte de lideranças da comunidade evangélica, que apontam omissão do Judiciário diante da intolerância voltada contra templos protestantes.
O despacho assinado nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2026, lista oito ocorrências recentes de vandalismo e destruição de iconografia sacra pelo país, mas não faz menção a episódios de violência, depredação ou discriminação contra minorias religiosas de matriz cristã reformada.
Abaixo, veja os principais pontos que alimentam as críticas de assimetria institucional e o desgaste político em torno da medida:
1. Críticas de seletividade e “esquecimento” de templos evangélicos
– Ausência no escopo oficial: Parlamentares e representantes da bancada evangélica questionam o critério do Ministério da Justiça e do STF ao focar a máquina da PF apenas na proteção de espaços com representação de imagens. Críticos argumentam que a violência sectária e a intolerância contra pastores e igrejas evangélicas — que não utilizam esculturas em seus cultos — têm sido historicamente negligenciadas pelas instâncias superiores do governo federal.
– Tensão acumulada desde o Carnaval: O descontentamento evangélico evoca o silêncio de autoridades diante de desfiles carnavalescos e manifestações culturais que promovem sátiras agressivas e representações consideradas desrespeitosas à fé cristã. A falta de manifestação de Dino nesses episódios, sob a justificativa de preservação da liberdade artística, contrasta com o enquadramento célere e o uso da polícia judiciária para apurar ofensas direcionadas a outras liturgias.
2. Uso político da máquina pública na reta final da eleição
– Oportunismo eleitoral: O momento escolhido para a abertura do inquérito, a apenas quatro dias do primeiro turno das eleições de 2026, é apontado pela oposição como uma tentativa de interferência direta no debate público. A medida é vista por analistas políticos como um movimento tático para blindar a chapa governista de Luiz Inácio Lula da Silva e contra-atacar a campanha de Flávio Bolsonaro, que vinha capitalizando politicamente sobre a pauta da liberdade de culto.
– Risco de aprofundamento da polarização: Ao invés de pacificar o cenário nacional, a portaria assinada pelo ministro acabou por inflamar ainda mais a disputa eleitoral no campo religioso. Ao segmentar os alvos da investigação e ignorar as queixas da maior bancada confessional do Congresso Nacional, a ação governamental ampliou a percepção de que o Estado adota pesos e medidas distintos para proteger os diferentes segmentos da sociedade brasileira.
Foto: Divulgação