Estudo aponta queda no faturamento, risco de demissões e aumento de custos no varejo e na construção civil
O fim da escala 6×1 ameaça os shopping centers com perdas de até R$ 32 bilhões, segundo estudo divulgado pela Associação Brasileira de Shopping Centers em parceria com a Tendências Consultoria.
A mudança na jornada de trabalho, que atualmente permite seis dias de serviço e um de folga, pode reduzir o faturamento do setor em até 16% no cenário mais restritivo. O modelo tradicional de escala 6×1 é amplamente adotado nos centros de compras para manter as operações em horários estendidos, inclusive aos fins de semana e feriados.
Propostas em discussão no Congresso Nacional visam reduzir a jornada semanal de 44 horas para 40 ou até 36 horas. Entre elas estão a Proposta de Emenda à Constituição da deputada Erika Hilton e o projeto enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com as simulações, o faturamento do setor, que fechou 2025 em R$ 200,9 bilhões, poderia cair para R$ 186,2 bilhões na escala 5×2 (redução para 40 horas semanais), o que representa uma perda de cerca de 7% ou entre R$ 14,7 bilhões e R$ 14,8 bilhões já no primeiro ano.
No cenário mais severo, com jornada de 36 horas semanais (escala 4×3), a retração chegaria a 16%, com perdas de até R$ 32 bilhões e faturamento projetado em R$ 168,7 bilhões.
Impacto no emprego e nos lojistas
O presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers, Glauco Humai, classificou o impacto como desastroso, comparando a situação à pandemia de COVID-19.
O estudo prevê a perda de 130 mil empregos formais no cenário de 40 horas (12,2% do total) ou até 290 mil vagas na redução para 36 horas (27%).
Os pequenos lojistas, que representam cerca de 60% dos estabelecimentos dentro dos shoppings, seriam os mais afetados. A necessidade de contratar mais funcionários para cobrir os mesmos horários elevaria significativamente os custos operacionais, podendo levar à redução de turnos, fechamento de lojas ou repasse de preços ao consumidor.
Atualmente, o setor reúne 658 empreendimentos e gera cerca de 1,1 milhão de empregos diretos. A mudança na jornada afetaria diretamente a capacidade de manter o atendimento em horários amplos, considerados essenciais para o varejo.
Efeitos na construção civil e no acesso à moradia
Além dos shoppings, o estudo aponta impactos na construção civil. A mão de obra representa cerca de 40% dos custos totais das obras.
Com a redução da jornada, os custos poderiam subir 5,5% na transição para 40 horas ou 11% para 36 horas. Isso resultaria em aumento nos preços dos imóveis.
Um apartamento de R$ 200 mil, por exemplo, passaria a custar cerca de R$ 211 mil ou R$ 222 mil, respectivamente, excluindo do acesso ao financiamento cerca de 1,6 milhão a 3,3 milhões de famílias de menor renda.
No segmento de R$ 500 mil, o efeito seria semelhante, com exclusão de 570 mil a 860 mil famílias. Entidades como a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias alertam que a medida pode dificultar o acesso à casa própria e elevar o custo geral da economia.
Debate no Congresso
O debate no Congresso Nacional tem se intensificado. Críticos apontam que a redução da jornada, sem ganhos prévios de produtividade, pode gerar efeitos negativos sobre emprego e consumo.
Já defensores da mudança argumentam que a medida pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Empresários, por sua vez, pedem um debate técnico mais aprofundado e setorial antes de qualquer aprovação.
Especialistas alertam que o fim da escala 6×1 pode representar um impacto significativo para o varejo em shoppings, potencialmente superior a eventos recentes. A expectativa é de que a discussão avance nos próximos meses, com possíveis ajustes para mitigar os efeitos econômicos.
Enquanto isso, o alerta permanece para lojistas, administradores de centros comerciais e consumidores, que podem sentir os efeitos no bolso por meio de preços mais altos ou redução na oferta de serviços.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Reprodução